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51 

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O DISCURSO (EDIÇÃO 105)

Foi escrita por Celso Brant e publicada em excelente livro de crônicas.
Não tenho o livro e vou reproduzi-la dentro das limitações naturais da memória.
Na manhã seguinte chegaria a cidadezinha do interior, dessas espremidas entre montanhas, sem luz, sem água, sem coisa alguma mas de política violenta, dessas de xingar as gerações passadas e vindouras.
Cel. Bonifácio, o mais poderoso chefe político do lugar, lider da facção dominante, cometeria o discurso.
Havia um obstáculo: o Cel. Bonifácio era quase analfabeto.
Arranjaram o Padre para escrever o discurso.
E, durante todo o dia e boa parte da noite, ele não fez outra coisa a não ser passear, pra lá e pra cá, lendo o discurso de cinco laudas preparado pelo padre.
Esperança de que se decorasse o discurso, nenhuma, por dois motivos: primeiro, porque era comprido demais; segundo porque o Coronel era tapado, incapaz de decorar a “Batatinha quando nasce”, principalmente porque ele era cabra macho, valente e decidido, incapaz dessas refrigerações.
Mas a oposição estava atenta.
E contratou um lalau para furtar o discurso do Coronel, no palanque.
Ocorreria o fiasco de uma tentativa de improviso.
No dia seguinte, lá estavam o Governador, seus Secretários, o Delegado, o Juiz de Paz, o Promotor, o Diretor do Ginásio, as Professoras, os alunos e outros menos votados.
A Banda de Música atacou de Hino Nacional.
E chegou, enfim, o momento em que o Coronel Bonifácio faria a saudação ao Governador.
O servico ja fora dado.
O Coronel, então, iniciou a oração:
- Exmo. Sr. Governador do Estado...
Meteu a mão no bolso e sentiu um frio na espinha.
- ... exmo sr. Secretário, Exmo. Sr. Secretário da Agricultura, exmo. sr. Prefeito Municipal...
E continuou revirando os bolsos, sem resultado.
- ... exmo. Sr. Delegado de Polícia, exmo. Sr. Padre Bernardino. Exmo. sr. Promotor...
E fez uma revisão, no paletó, nas calças, na camisa, sem encontrar o miserável discurso.
- Exmo. sr. Diretor do Ginásio, exmo. sr. fiscal da Prefeitura, exmo. sr. mata-mosquitos, exmo. sr. magarefe do matadouro local.
O fato é que já não havia mais ninguém para ser mencionado.
E o discurso, neca de pitibiribas.
O Coronel Bonifácio fez uma pausa, ficou vermelhíssimo e concluiu:
- São todos uns ladrões!!!

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REGIME À RISCA (EDIÇÃO 104)

A balança, ao lado de ser um dos símbolos do equilíbrio, da equidade e da justiça, ganhou notável importância nos tempos modernos.
Não há cristão que nunca tenha subido na balança para saber como anda seu peso, controlando gramas e quilos.
Retifico: Ezequiel Augusto nunca subiu.
Torno a retificar; subiu uma vez.
Mas é tão magro que a balança não fez o menor movimento.
Já o Dr. Milanês, tão gordo, esborrachou a balança.
Conversemos, porém nem tanto a terra, nem tanto ao mar, sobre pessoas que se preocupam com as gordurinhas, a mulher de sociedade, o dandy que se aproxima da idade do lobo e as pessoas que, quaisquer que sejam as razões, não admitem uma barriga protuberante.
Um conhecido pediatra deste bispado, Dr. Caldeira viu-se diante da contingência de procurar um seu colega médico para cuidar do seu problema de obesidade.
Não que ele se sinta deselegante ou que tenha maiores preucupações estéticas.
Mas a mulher e imperiosa e faz questão dessas coisas.
O médico arranjou um regime generoso:
- Caldeira, você pode comer tudo o que sempre comeu. Mas de uma coisa eu não abro mão.
- De quê?
- Da Brahma. A braminha que você toma todos os dias não pode ser.
- Bem, só e absolutamente indispensável.
Passando seis meses, Caldeira reencontra o médico.
- Ue! Você não emagreceu nada!
- Meu regime nunca falhou!
- Fiz certinho como você mandou.
- Parou com a Brahma?
- Parei. Desde aquele dia que tomo Antártica

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ADMINISTRADOR DE PERSONALIDADE (EDIÇÃO 103)

Tomei o elevador e ao chegar ao quarto andar vi na parede uma placa: “José Camargo Bezerra – Administrador de Personalidade – Sala 406”.
Esqueci meu compromisso e fui direto ao Bezerra.
-Eu nao sabia dessa profissão, Administrador de Personalidade.
-E novíssima. Eu mesma imaginei-a, e sou, certamente, o primeiro e único Administrador de Personalidade do mundo.
-Em que consiste?
-Chega um cidadão, um cliente, e me faz um relatório sobre sua personalidade. Tudo: nome, profissão, idade, filiação, atavismo, cultura, descendência, ascendência, hábitos, costumes, comportamento, complexos, recalques, altura, peso, crença, convicções políticas e religiosas, marca de cigarro e de bebida, vícios públicos e secretos, signo zodiacal, preferências diversas, crimes, transgressões e contravenções, patrimônio, rendimentos, viagens feitas e planejadas, escolaridade, condições de saúde etc etc.
-Um estudo psicológico?
-Sim, é feito um estudo psicológico. E outros, que são segredo profissional. Bem, a partir daí, eu passo a observar durante algum tempo o seu comportamento, Vou definir sua personalidade. Após defini-la, passo a administra-la. Através de meu metodo exclusivo, eu o transformo em uma personalidade irrepreensível, de notável equilíbrio interior, vitorioso nos negócios, altamente sociável, simpático, de boa saúde, elegante e de grande magnetismo pessoal.
-Como o senhor conseguiria isso?
-O meu metodo fundamenta-se na persuasão. Se o cidadão é ébrio, discuto com ele os valores positivos e negativos da cachaça. Ganho a discussão. Se é botafoguense, mostro-lhe o quanto e desprimoroso isso. Ganho a discussão. Se não se relaciona bem com a mulher, mostro-lhe que isso é uma burrice. Ganho a discussão. Se é ateu, provo-lhe a existência de Deus. Ganho a discussão. Se é mal sucedido nos negócios, mostro-lhe o caminho certo.
-O senhor diz que ganha todas as discussões. E se não ganhar?
-Ganho.
-Não ganha.
-Ganho!
-Não ganha!
-Bem, já vi que não ganho mesmo. Se não ganhar, é por que ele não deseja ser uma personalidade perfeita, como é o seu caso.

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UMA MODESTA DESCOBERTA (EDIÇÃO 102)

Conheci um moço, filho de pais consanguíneos, que adorava bananas.
Ora, direis, como Bilac, adorar bananas!
Muitos gostam de bananas!
Só que o nosso herói comia 1.200 bananas de uma sentada, com casca e tudo!
Com base no fato de que o casamento consanguíneo pode gerar filhos portadores dos mais diversos tipos de anormalidades fiquei pensando se só as relacçõs de sangue provocariam isso.
Após exautivas pesquisas, cheguei a conclusão de que os casamentos entre pessoas da mesma profissão ou profissões congeneres podem gerar seres condicionados as profissões paternas.
Assim, um advogado que se casa com uma advogada tera filhos “direitos” de grandes espírito de “justiça”.
Um técnico em refrigeração deve evitar casar-se com moça que trabalhe em sorveteria, porque seus filhos seriam, “frescos”.
Um casal de matemáticos pode gerar crianças com tendências a formação de “cálculos” renais.
Engenheiros que se casarem podem aguardar filhos capazes de grandes “obras”.
Filhos de pintor e pintora serão “obras primas”.
Um casal de pistoleiros terá filhos amantes de “balas”.
O datilógrafo que se casar com uma dtilógrafa pode aguardar filhos “letrados”.
Casamento que dever ser evitado é o de Deputado com Deputada.
Se o casal tiver só meninos-homens, está bem, serão “homens públicos”.
Mas se por infelicidade, vierem meninas-mulheres, serão “mulheres-públicas”.
Pode até não ser, defeito, mas, não cabe dúvida, é uma inconveniência.

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O VELHO PÃO-VELHO (EDIÇÃO 101)

De repente, veio-me, assim, uma saudade do Pão-Velho.
Lembra-se dele?
Era um crioulo comprido, de quase dois metros de altura, de dentes branquinhos, que jogou no Democrata de quarenta e tantos – o famoso Expresso-do-Vale – alguns anos mais tarde no Pastoril, quando os chamados “mulatinhos suburbanos” faziam o diabo com a bola.
Pão-Velho parava um time no meio do campo, na bola, porque jogava o fino, e na pancada, porque “espanava” que não era mole.
Era uma figura querida, simpática, amena e amiga, sempre alegre, brincando com todo mundo.
Dizem que, hoje, ele está em Belo Horizonte – os anos não lhe pesaram, não tem uma ruga - onde teria se dedicado a pregação religiosa, sempre precedida de dois dedinhos da boa cana, Segundo ele, para “levantar o moral”.
Azuil que era o ponta direita do Democrata no tempo em que Pão-Velho jogava no Pastoril, conta que, as vezes, quando ele se livrava do lateral esquerdo pastorilense, Pão-Velho saia na cobertura e, rindo, na corrida, gritava:
-Cuidado, “Papai Noel” (era o apelido do Azuil), porque pode acontecer um “acidente” com você.
E o Azuil, é claro, despachava a bola logo.
De outra feita, jogavam, Pastoril e Flamengo do Rio. E Pão-Velho marcava o atacante Sarcineli.
Este deu uma entrada mais dura em Pão-Velho, que advertiu:
-Olhe, se você quebrar minha perna, não tem importância nenhuma. Vou pra minha fazendinha beber leite das minha vacas. Mas se eu quebrar sua perna, você vai passar fome.
Sarcineli fez cara de desdem e contestou:
-Que é isso, crioulo?! Eu sou Sarcineli, ganho 10 mil contos por mês.
Pão-Velho encarou Sarcineli e fechou o “papo”:
-Com essa bolinha curta? Ladrão!!!

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JUSTIÇA CEGA (EDIÇÃO 100)

Que o negócio não anda fácil, não cabe dúvida.
A legislação eleitoral capou a possibilidade de abuso de poder econômico nas campanhas, mas, ainda assim, uma campanha eleitoral continua exigindo muito preparo físico e financeiro.
É só o leitor imaginar o que é viajar noite e dia e andar pra lá e pra cá e falar o tempo todo (falar por falar, nem por isso, mas enganar não e mole, não) e preparar fotografias, impressos, faixas, cartazes, fazer promoções etc. etc.
Por isso, a turma anda no “grito”: o candidato pobre faz “dobradinha” com o rico: o candidato sem votos procura “dobrar” com o farto, e o que não tem dinheiro nem voto dobra os joelhos e apela para os céus.
E assim vai até a hora da verdade, que é a decisão das urnas.
Dois episódios mostram, sem mascaramento, que os candidatos não estão numa parada fácil, não.
Aqui, o Juiz Hércules Moreira Barbosa tocou na cadeia, por 30 dias, o candidato a deputado estadual pelo MDB de Inhapim, José Ferreira Sobrinho, que há nove meses não paga pensão a sua mulher.
Leio, agora, num jornal, que em Rio Branco, no Acre, a polícia apanhou em flagrante três assaltantes de um posto de gasolina.
Quem é que estava entre os assaltantes?
Acertaram! Um candidato. Eles estão em toda parte.
Um certo Edmar de tal, candidato a deputado estadual, que, no distrito, explicou que fora “envolvido” pelos outros dois cúmplices e – vejam que inocência! – não sabia que se tratava de um assalto, pensando que fosse brincadeira.
Os candidatos são assim, estão em todos os lugares e são homens ingênuos, que não sabem que estão obrigados a cumprir uma sentença judicial, para a mulher e os filhos não passarem fome, e não sabem distinguir um assalto de uma brincadeira.
A gente chega a pensar que a Justiça não está fazendo justiça com eles e não tem perspicacia para entender que essas atividades extras soa apenas um esforço para conseguir recursos para a campanha, deixando de gastar e lançando mão do dinheiro alheio.

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A MÚSICA FALADA (EDIÇÃO 99)

Lembro-me do Professor Paulo Zappi, muito exigente (não admitia sequer a falta de um botão no uniforme de um aluno), a ensinar as colcheias, semicolcheias, tusas, semifusas e outras que tais.
E, em voz baixa, grave ensinava:
- A música se compoe de harmonia, melodia e rítimo.
Meus conhecimentos de música, confesso, nunca foram além dessa pequena regra.
Mas tenho bom ouvido, e pude muitas vezes constatar que o professor Paulo Zappi ensinara certo.
Há um trecho, por exemplo, de Cavaleria Rusticana, para mim o máximo que já se fez em musica, em que, a par de sua extraordinária beleza, a gente indentifica a linha melódica e o rítimo, dentro de um arranjo irrepreensívelmente harmônico.
Garanto-lhes que não mudei, como propes a dúvida machadeana sobre o Natal.
Vieram o rock, o le-le-le, o twist, a bossa nova, enfim, criaram o que se chama modernismo, e dentro deste movimento, que tem muita coisa boa, surgiram verdadeiras aberrações.
Elas começam pelas figuras.
Os músicos do antigamente eram pessoas talvez maldormidas talvez românticas, mas comuns na aparência.
Os músicos modernos são cabeludos barbados, mormacentos macerados, dispneicos.
Os primeiros arrancavam os sons numa procura constante do perfeicionismo.
Os segundos, espancam os instrumentos.
O produto final – a música – antes bela e delicada como uma donzela a banhar-se numa fonte límpida e florida transmudou-se para o horrendo, como os monstros da serie Ultraman da tevê.
Os chamados pesquisadores, que buscam sons novos e fazem músicas de laboratório, terminaram por atingir a uma nova formula.
Excluiram a melodia e a harmonia e crescentaram o non sense e barulho – eis a música moderna, uma das grandes responsáveis pela poluição sonora.

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A GALINHA AFETUOSA (EDIÇÃO 98)

O Professor Costa Freitas recosta-se na cadeira e diz:
- Os nossos caminhos são diferentes. Mas o nosso objetivo é o mesmo.
- Pois, não, Professor.
- E por que você não conta a estória da Galinha Afetuosa?
- É boa?
- É.
- Quem é seu autor?
- Neil Lúcio, psicografado por Francisco Xavier.
- Um desencarnado...
- Sim.
- Conheço poucas obras dos vivos e nehuma dos desencarnados. Eis a razão pela qual eu não poderia contar essa estória.
O Professor Costa Freitas, que está fazendo um programa chamado “Balançando a Roseira” (uma roseira sem espinhos), sobre a prisão do médico Célio Araújo e quejandos, acendeu um cigarro e falou:
- Eis uma síntese. Uma galinha idealista dedicou-se a missão de chocar ovos, quaisquer que fossem. Chocou vários: de peru, e este bateu nela; de águia, e esta voou para as alturas; de pato, e este a abandonou. E muitos outros. Desiludida, resolveu suicidar-se, saltando no rio. Foi quando encontrou-se com uma velha e experiente galinha, que, notando sua tristeza, quis conhecer sua história. Depois de ouvir tudo, a galinha experiente disse-lhe: “Tente mais uma vêz. Conheço um ninho com muitos ovos, cuja galinha morreu”. A Galinha Afetuosa tentou e nasceram-lhe diversos pintos, belos, saudáveis e carinhosos com a mãe.
Professor Costa Freitas soprou fora uma tragada de seu cigarro e concluiu:
- O moral da estória e que, as vezes, nas situações mais difíceis, vale sempre tentar outra vêz.
Eu também acho.
Agora, é reconhecer que a situação é grave, que a “roseira”foi balançada, e que vale, passada a crise, sem ressentimentos, fazer um buquê das rosas que ficarem inteiras.

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A MÉDIA (EDIÇÃO 97)

O veterano e prestigioso oficial da Polícia entrou na Delegacia e todos abriram álas, até que ele se visse diante do tenente-delegado.
Este levantou-se, fez continência e anunciou:
- Sem alteração.
- Sem alteração, uma ova protestou o coronel. Você acha, por acaso, que furtarem as jóias de minha mulher não seja uma alteração, e das bravas?
- Eu não sabia...
- Pois fique sabendo. E quero serviço rãpido e eficiente. Quero as jóias de minha mulher de volta e esses ladrões metidos no xadrez.
- Sim, senhor – assentiu o tenente.
Logo virou-se para os homens presentes e ordenou:
- Vocês ouviram o senhor coronel.
Tem duas horas para me apresentarem esses ladrões.
O coronel se retirou com o mesmo “aplomb” com que entrou.
“Eis aí uma oportunidade de ouro para apressar minha promoção” – pensou o tenente.
E deu sorte: ao vencerem as duas horas dadas, ele estava com os ladrões a sua frente e com as jóias sobre a mesa.
Mandou que trancafiassem os homens, meteu as jóias no bolso e partiu para a casa do coronel, para fazer sua “media”.
O homem não estava em casa, mas as jóias poderiam ser entregues a sua mulher e, talvez – quem sabe? – seria até melhor.
Ela atendeu-o numa bela e ampla sala.
O tenente explicou-lhe que “o senhor coronel prestara queixa sobre as jóias furtadas da senhora, que aquí estão”.
Ela espiou para as jóias por alguns segundos, com expressão intrigada, e após outro momento, falou com voz trêmula:
- Estas jóias não são minhas.
Só então – muito tarde – o tenente percebeu que dera tremenda “mancada”, indo a “matriz”, quando deveria ir à “filial”.
E assim se explica como uma carreira militar, que se antecipava das mais brilhantes, demorou tanto a ser cumprida.

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QUEM NÃO É VISTO (EDIÇÃO 96)

Barrozinho era radical:
-Não viu!
E não ia, mesmo.
Foi-se o pai, foi-se a mãe, foram-se os irmãos, inúmeros amigos.
Ninguém jamais bateu os olhos no Barrozinho segurando alça de caixão ou acompanhando enterro.
Uma beata, certa vez, exclamou:
- Te esconjuro! Pagão!
Quando “apertavam o santo” dele, Barrozinho falava reticente:
- Não morro de lembrança...
O negócio era meio subjetivo, meio filosófico.
Mas ele assistia, sim.
Jamais houve um velório em que ele não estivesse, que não consolasse as viúvas e demais parentes dos finados, que não derramasse sentidas lágrimas.
Era o primeiro a chegar e ajudava nas cansativas e desagradáveis providências de arranjar atestados, encomendação, licenças, etc.., juntando tudo ao batistério, até que o sepultamento ficasse “sacramentado”.
Mas quando dava a hora de sair o interro, o Barrozinho empacava como burro velho:
- Não vou!
E não ia, mesmo.
Ficava de longe, da porta da casa, espiando o cortejo desaparecer na primeira quebrada de esquina.
Tanto aporrinharam o Barrozinho, que, certo dia, ele fez uma assembléia-geral de seus “críticos”, à frente o Dr. Carvalho (na realidade, agrimensor que não protestava contra o título), que era Delegado de Polícia, Dentista e Parteiro, e esclareceu:
- Não é papagaiada, não, gente.
Não sou pagão. Sou batizado na Igreja de Nosso Senhor. Mas a gente não deve aparecer muito em cemitério, não. Se lá não vou, lá não se lembram de mim. Se não se lembram, de lembranças não morro.
E tomando fôlego, encerrou a reunião:
- Quem não é visto, não é lembrado.
Barrozinho morreu, semana passada, aos 125 anos de idade.
Foi a pé, sozinho, para o cemitério.

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O BUMBUM DA BABÁ (EDIÇÃO 95)

Casa colonial, assobradada, de amplos jardins, piscina e todos os confortos próprios a gente bem-nascida, que pode e sabe viver. Quem a vê por fora sente inveja e é capaz de dizer, atropelando um suspiro:
- Que paraíso!
Entremos pelo portão de ferro, atravessemos os jardins e tomemos a liberdade de ficar junto a uma janela e espiar para dentro, a ver o que está acontecendo.
O casal está na confortável sala, cada qual numa poltrona.
- É o caos! – exclama ele.
- Mas o que posso fazer, santos céus! – exclama ela, com ar desorientado como que pedindo socorro.
Há um curto silêncio, quebrado por ela:
- Fiz o que deveria fazer, isto é, contratei uma nova cozinheira e uma nova babá. Só que, parece, não fui muito feliz...
- Não foi muito feliz? Raramente alguém terá sido tão infeliz: a cozinheira é surda e a babá, se não for piranha está precisando só de um empurrãozinho.
- Eu sei... eu sei...
- Ainda ontem pedi a ela um Cinzano com camarão e ela me disse que não conhece nenhum cigano. Expliquei-lhe que eu pedira Cizano. Ela intendeu. E, dai a pouco, ela me trouxe a bebida. Mas no lugar de camarão, veio macarrão.
- É...eu sei...
- E essa babá vive com o bumbum de fora, isto é, cada vez que ela se abaixa, a gente ve tudo. A minisaia dela parece blusa, de tão curta, e a cara vermelha de rougee as beiçolas rebocadas de baton. Nosso filho só anda atrás dela, marcação cerrada, e não demora nós vamos ser testemunhas de uma agressão sexual. Aí vem ela...
De fato, passa a babá, toda rebolante, e vara a sala de um lado a outro.
- E ai vem ele...
E logo passa o rapazola, com jeito de zumbi, os olhos virados, diretos no bumbum da babá.
- É o caos!
A mulher sente um chilique e desmaia.
De nossa parte, devemos nos retirar, para que não sejamos testemunhas do drama que se passa nesse paraíso, um drama gerado pela tirania das empregadas domésticas.

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COINCIDÊNCIA (EDIÇÃO 94)

O Azambuja estava debruçado sobre a mesa, fazendo contas, quando, ao erguer os olhos, viu, na sua direção um cano de metralhadora.
- Isto é um assalto! – falou o homem, com vóz segura, por trás da mencionada cuspidora de fogo.
- Abra o cofre! – completou.
- eu não tenho a chave...
O homem cutucou-lhe a costela com o cano e ele também sentiu necessidade de completar:
- ...mas o tesoureiro tem.
Veio o baixinho, careca, de óculos, todo solícito:
- Aquí está...
E foi abrindo o cofre.
Ao mesmo tempo, os assaltantes iam imprensando os funcionários e os poucos clientes para os fundos da agência do banco e outro permanecia junto a porta principal, oculto por uma coluna.
Ouvia-se, aquí e alí, de vez em quando, uma voz a ditar ordens, os sentidos atentos, enquanto os demais tremiam a bom tremer.
Súbito, a porta se mexe e entra o Raimundo que todas as tardes fazia os depósitos de uma empresa de ônibus e era muito popular entre os bancários.
Não viu ninguém.
- Que deserto é este? – gritou o Raimundo.
Ninguém respondeu.
E ele, dando mais alguns passos, voltou a gritar:
- Ninguém quer nada! É por isso que os bancos são assaltados!
- Pois isto é um assalto! – falou o homem atrás dele.
Raimundo ficou amarelo, as pernas a tremerem. Ameaçado a vertical, e balbuciou:
- Que concidência...
E caiu duro para trás.

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FALSA CULTURA (EDIÇÃO 93)

Existem quatro tipos de culturas: a vasta, ampla, sólida (se se fosse possível lhe dar uma pancada, ressoaria como bronze), que arrange todos os assuntos; a especializada, que cuida de um assunto só; a fragmentaria, que é feita de um pouco de cada coisa e que se confunde com os chamados conhecimentos gerais; e, finalmente, a mais encontradiça, que é a falsa cultura.
Quem atentou para a falsa cultura foi o humorista Milor Fernandes, mais conhecido pelo epiteto de Vão Gogo, e consiste em afirmações estapafúrdias como esta:
- Cleópatra era feia, vesga, magra e tinha as pernas finas.
Como ninguém conhece Cleópatra e suas descrições são mínimas, o cavalheiro que diz uma sandice dessa quer apenas ser original e acaba fazendo com que se integre, por meio dos desavisados um falso conceito histórico.
Razoável é que se suponha que Cleópatra tenha sido uma bela mulher, dessas de nao se deixar para ninguém tanto que ela provocou paixões violentas em homens como Marco Antônio e Julio César, ambos tão poderosos que tinham aos seus pés as mais lindas mulheres do Império Romano.
Vai daí que, Vão Gogo, dentro da mesma linha, disse que “ninguém está livre de dizer besteiras, mas o pior é dizê-las com solenidade”.
E eu emendo dizendo que o duro da besteira não é para quem a diz, mas para quem a ouve.
Determinado cidadão, com pretensões a cultura, andou lendo um livro sobre Rui Barbosa e, nao sei porque, resolveu provocar-me para uma discussão em torno do chamado Águia do Haia.
Por conhecer pouco da vida de Rui e idem de sua obra e por não ver sentido em ficar a discutir meio sobre o à toa e por não reconhecer cultura no meu desafiante, fui me recusando sempre com delicadeza.
Ele passava perto de mim e dizia coisas como esta:
- Rui nunca pedoou o povo brasileiro por não elegê-lo para a Presidência da República.
Ou:
- Rui é mais promoção do que cultura e mérito.
Mas chega um momento em que a gente não resiste.
E esse momento chegou quando lhe disse:
- Rui era um parnasiasmo.
Diante de tamanho absurdo, disse-lhe que Rui foi tão parnasiano quanto Stanislaw Ponte Preta ou Roberto Campos.
Bem dizia Rui que a vírgula não deveria sobrar no tinteiro dos ignorantes.
Assim também a história.

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OS CAPRICHOS DA FORTUNA (EDIÇÃO 92)

Tenho um tio inglês.
Há muitos anos – 50, 55, por aí – ele caminhava por uma rua escura de Liverpool, quando, de repente, ouviu débeis gritos de socorro:
- Help! Help!
Dirigiu-se para o lugar do apelo e deparou com um homem caído, provavelmente atropelado, que parecia em estado grave.
Tomou-o aos braços e levou-o a um hospital.
Dias depois, deparou com um anúncio no Time que dizia:
“Estamos a procura do homem que prestou socorro a Sir. Hilary Home na noite de 23 de agosto último. Banz & Holden Advogados – 73, Picadilly Av”.
Meu tio Henry (este o seu nome) dirigiu-se ao endereço e foi recebido por um dos advogados.
Pouca conversa foi suficiente para que Holden constatasse ser ele, realmente, quem prestara socorro a Home.
E informou-lhe:
- Sir. Hilary faleceu. Mas, antes disso, ditou-me seu testamento e deixou-lhe, além de profunda gratidão, a importância de 500 mil libras esterlinas. Dentro de uma semana o dinheiro estará depositado em seu nome no Banco de Londres.
Por esse processo tipicamente inglês, meu tio Henry ficou rico.
Na verdade, ele jamais almejara a fortuna e nunca trabalhara na vida.
Seu pai fora um modesto fabricante de doces no Sul da Inglaterra, e, a custa de muito trabalho e de muita poupança, deixou para Henry algumas casas nos arrabaldes de Birmighan, que lhe davam o mínimo necessário para levar uma vidinha.
Malandro, devoto da mulher e do vinho, mudou-se para a trepidante Liverpool, ambiente mais consetâneo com sua natureza.
Hoje, tio Henry possui um iate estacionado no Canal da Mancha.
O barco, na realidade, estava encalhado.
Nas tentativas de libertá-lo, por cúmulo da sorte, foi encontrada sob seu casco uma arca do século XVI cheia de moedas de ouro.
Esse achado aumentou muitas vezes sua fortuna, calculada por baixo em 10 milhões de libras.
Tio Henry acaba de enviar-me uma carta, nomeando-me seu único herdeiro.
Ele tem 80 anos e está muito mal de saude.
Conto esses fatos singulares, apenas para confirmar uma velha tese minha de que a fortuna distingue seus afetos e que não há necessidade de o homem partir ao seu encontro.

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NEM TANTO (EDIÇÃO 91)

Se de um lado esta planície era quente – pelo clima e pelos tiroteios – do outro lado, era bastante amena.
Respirava-se o ar puro das matas, as gentes não diziam palavrões e as famílias costumavam sentar-se a porta, na boca da noite, para aproveitar a fresca.
Mas a guerra trouxe um pouco de “civilização” para nós e surgiu a fila.
Mesmo numa cidade pequena e erma como a Governador Valadares desse tempo, o povo tinha de se enfileirar para comprar um litro de querosene.
Surgiram as filas do cinema, da carne, do banco, das repartições públicas e – esta série eterna – do INPS.
É a fila mais dolorosa, parecida com os muros da velha Jerusalem.
Neste patropi existem situações curiosas como esta: os doentes vão para a fila.
Mas a fila não e de todo negativa, porque gera relacionamento, amizades, aproxima as pessoas.
E foi justamente numa delas que um cidadão puxou conversa com outro, este último apoiado numa bengala e usando óculos escuros.
- O senhor vai receber algum benefício?
A pergunta seria ociosa, porque aquela era uma fila específica.
- Sim, senhor.
- O senhor e cego?
- Sim, senhor.
- Não enxerga nada, nadinha?
- Não, senhor.
Aquela não era nem conversa de fila: estava seca.
E o interpelante resolveu “molha-la”:
-Mas escuta aqui. E quando passa uma mulata? Dessas redondas,
bamboleantes, convidativas. Mesmo assim o senhor não enxerga.
A expressão do cego iluminou-se e a luz atravessou a escuridão das lentes dos seus óculos.
E disse:
- Bem, quando passa uma mulata, eu vejo um sombreado…

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TRANSPORTAÇÃO (EDIÇÃO 90)

Embora estejem lutando há milênios, árabes e judeus tem duas coisas em comum: a desconfiança e o apego ao dinheiro.
Esta estória configura bem a desconfiança do judeu.
Dois deles se encontram na Russia e o primeiro pergunta ao segundo:
-Isac, aonde vais?
-Vou a Sebastopol, Davi.
-Mentes. Dizes que vais para Sebastopol para que eu pense que vais para Moscou, mas, na realidade vais para Sebastopol.
E esta, configura bem a desconfiança do árabe.
Seleme manda seu filho subir numa escada e atirar-se nos seus braços.
A criança sorri, antevendo uma brincadeira gostosa.
E salta e esborracha no chão.
Seleme, então, vira-se para o filho e sentencia:
-Isso e pra você não confiar em ninguém. Nem no seu pai.
Vai dai que (contam-me) Jacó, o Judeu, devia um dinheiro a Salim, o árabe, que seria pago daí a dois dias.
Jacó perdera o sono, estava tresnoitado, e emagrecia a olhos vistos, por não ter condições de pagar.
Seu irmão Moisés falou com ele:
-Jacó, o que há com você?
-Não tenho dormido, porque devo um dinheiro a Salim e não vou poder pagar-lhe.
Moises pensou que motivo tão caganifante não seria bastante para tirar o sono de ninguém , mas resolveu tomar uma atitude que resolvesse o problema de Jacó.
-Você vai me emprestar o dinheiro? – perguntou Jacó.
-E eu sou doido? – respondeu indagativamente Moisés, sentindo-se ofendido com a pergunta.
Em seguida, foi a janela e gritou para a janela da frente:
-Saliiiim
-O que é?
-O Jacó deve-lhe um dinheiro, mas não vai ter como pagar.
Falou, fechou a janela e voltou-se para Jacó dizendo:
- Agora, você pode dormir em paz. Quem não vai dormir e o Salim…

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RESOLVIDO (EDIÇÃO 89)

-Doutor, o senhor engessou minha perna com uma pulga dentro.
-Como é que você sabe que é uma pulga?
-Bem, pode ser um pulgo…
-Ora, isso e psicológico.
-Psicológico uma ova! Incomoda pra burro!
-Vamos por partes. Onde é que ela está agora?
-Está aqui, ó. Um pouco acima do joelho.
-Vou enfiar uma varinha.
-Já enfiei dez varinhas, doutor. O senhor tem é que cortar esse gesso.
-Está bem.
O médico toma uma tesoura, comeca a cortar e pergunta:
- O senhor sabe que a pulga é um inseto díptero?
- Que é díptero?
- Que tem duas asas.
- O senhor sabe…
Ui! Cuidado com a tesoura! O senhor sabe de algum inseto que tenha uma asa só?
-Não, sei não. Pronto! Esta tirado o gesso.
-Que alívio!
-Cadê a pulga?
-Ela estava aqui. Deve ter pulado.
-Vamos engessar outra vez.
-Tá
O médico recomeçou a trabalhar.
- Estou dando uma trabalheira danada.
- Isso é assim mesmo.
- Eu tenho uma grande admiração pelos médicos.
- Muito obrigado.
- O senhor tem na cabeça milênios de sabedoria, desde o apocalípse?
- Desde o apocalípse?
- Apocalípse, nao Hipócrates.
- Ah! Sim! Pronto está engessado de novo.
- Doutor…
- O que?
- Duas…
- Duas o que?
- Duas pulgas!
- Não é possível.
- Uma aqui e outra aqui.
- Ótimo!
- Ótimo como?
- Você não é fã de Hipócrates?
- Sou. E dai?
- Dai similia similibus curantur…

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OJERIZA A CALHAR (EDIÇÃO 88)

-Ojeriza…Como é que se escreve ojeriza?
Alguém informou certinho – com j e com z – e logo a grafia foi adotada.
E veio o comentário:
- Palavra horrível!
Claro ojeriza é raiva permanente, e raiva é pecado mortal, próprio dos fracos de espírito.
Assim como desatre, hecatombe, catastrophe são palavras feias que definam coisas feias.
Na recíproca, paraíso, oásis, paisagem, são palavras bonitas.
Pouco importa, porém, que ojeriza seja feia ou bonita.
O que perturba é saber que alguém, nestes tempos modernos, seja capaz de desenterrar uma palavra sem uso, velha e gasta.
Seria como chamar uma partida de futebol de porfia ou luta de boxe de contenda.
E a propósito disso, lembro-me da estória do professor Arquimedes Leitão, mestre em Português, que tinha sérias e procedentes pretensões a filólogo.
Vai daí que, cuidadoso, o professor Arquimedes, por conta própria e a pretexto de defender com intransigência a bela flôr do Lácio, arvorou-se em revisor público e, sempre que lhe sobrava uma folga, saia pela rua a corrigir placas, cartazes, faixas, qualquer tipo de letreiro que agredisse a lingua.
Sucede que, certa noite, o professor Arquimedes estava a emendar um palavrão cabeludo num muro, quando, de repente, ouviu uma voz em tom de admiração e censura:
-Professor, com efeito! O senhor, escrevendo um palavrão?!
O velho mestre, virando-se, esclareceu:
- Escrevendo, vírgula! Corrigindo!
Mas não houve como o Professor Arquimedes pudesse convencer o zeloso soldado, sendo levado a Delegacia de Polícia.
Foi processado.
Mas, com raiva, despejou uma saraivada de palavrões sobre o delegado e o soldado, contados como agravantes, sem ligar muito para vernáculo e sem querer saber se registrados ou, não nos dicionários.
O certo é que, a partir desse dia e dessa injustiça, o professor Arquimedes Leitão dedicou intransigente ojeriza (com licença da palavra) a polícia e a arte desinteressada de defender a lingua de Camões.

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PODE, MAS NÃO PODE (EDIÇÃO 87)

Que o Brasil está errado desde o ano 1.500, não cabe dúvida.
Neste país, há coisas proibidas que podem, e coisas que podem que não podem.
Tomemos alguns exemplos: é proibido jogar no bicho, mas todo mundo joga todo cidadão, por direito constitucional, tem o direito de ir e vir, mas, se um trem da Vale atravessa na Avenida, ninguém consegue nem uma coisa nem outra.
Pois bem, eu estava, aqui, outro dia, trabalhando, quando a moçaa anunciou que havia uma senhora querendo falar comigo.
Fui atendê-la.
Tratava-se de criatura bastante simples, vestida pobremente, com um pano enrolado na cabeça.
Ela me disse:
- Vim aqui pra ver se o senhor pode me ajudar.
- Em quê?
- Tenho de pagar isto aqui no banco e não tenho dinheiro.
O natural seria que eu dissesse que meu dinheiro não existe para esse fim, que tenho mulher e filhos pra tratar, essas coisas.
Mas como todo mundo é meio metido a bom samaritano, li o papel que ela me apresentava.
Era uma guia de recolhimento de uma taxa qualquer, para que a Delegacia de Polícia, após o pagamento, expedisse em nome da suplicante um atestado de bons antecedentes.
Aparentemente, tudo estava certo, salvo dois aspectos: 1 – a mulher me pedir para pagar pra ela (isso e irrelevante, tanto que acabei pagando); 2 – cobrarem alguma coisa de uma mulher flagrantemente pobre.
Um cidadão que estava perto explicou-me:
- Atestado de pobreza, a polícia dá, sem recolhimento de taxa; mas de bons antecedentes, o recolhimento da taxa e indispensável.
Que está errado, está.
Parece até comportamento de sádicos, que atestam pobreza com prazer.
É como se fosse explicado à boa senhora:
- Pobreza, atestamos, já que a senhora não tem onde cair morta. Mas pra atestar que pobre tem bons antecedentes, vai ter que se virar para arranjar dinheiro.

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CASO PERDIDO (EDIÇÃO 86)

Por mais rico e mais honesto, não há homem no mundo que não tenha ouvido com justiça ou injustiça, esta ameaça:
- Se você não pagar até amanhã, eu mando para o protesto.
Geralmente, paga-se, porque, não raro, prefere-se um prejuízo a humilhação de um protesto.
- Esta frase, porém, é mais uma bravata que uma intenção.
Pode-se mesmo dizer, numa transportação bíblica, que muitos são os ameaçados e poucos os protestados.
Acompanhemos a trajetória de um homem modesto, de negócios pequenos, homeopáticos, que sempre agiu com honestidade, e que, de repente, se vê diante de uma dificuldade irremovível.
Chega o aviso do Cartório de Protestos.
Ele se agita.
Faz as contas e vê que não dá.
Em seguida, no primeiro prurido de desespero, surge também a primeira ponta de capitulação, no caso, desonestidade: um assalto ... a falsificação de um cheque...
Seu anjo da guarda protesta:
- Nada disso!
Vai ao cartório pedir prazo.
A resposta é a de sempre:
- Sinto muito, mas as instruções são rigorosíssimas.
O nosso herói chora riscinas, inunda o cartório.
E a noite, não dorme, rola na cama e pensa em suicídio.
No dia seguinte, recorre a todos os amigos certos, que se tornam incertos.
Nada feito.
Corre o protesto.
Este é um caso, como outros, de “primeira vez”.
Daí pra frente ele já não liga.
E os protestos se sucedem.
Até faz o hábito, depois, o costume de passar sempre pelo cartório e, após empurrar a porta, perguntar:
- Como é que está a barra, aí?
Mais um caso perdido.

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COINCIDÊNCIA (EDIÇÃO 85)

O Azambuja estava debruçado sobre a mesa, fazendo contas, quando, ao erguer os olhos, viu, na sua direção um cano de metralhadora.
- Isto é um assalto! – falou o homem, com voz segura, por trás da mencionada cuspidora de fogo.
- Eu não tenho a chave...
O homem cutucou-lhe a costela com o cano e ele também sentiu necessidade de completar:
- ... mas o tesoureiro tem.
Veio o baixinho, careca, de oculos, todo solícito:
- Aqui está.
E foi abrindo o cofre.
Ao mesmo tempo, os assaltantes iam imprensando os funcionários e os poucos clientes para os fundos da agência do banco e outro permanecia junto a porta principal, oculto por uma coluna.
Ouvia-se, aqui e alí, de vez em quando, uma voz a ditar ordens, os sentidos atentos, enquanto os demais tremiam a bom tremer.
Súbito, a porta se mexe e entra o Raimundo que todas as tardes fazia os depositos de uma empresa de ônibus e era muito popular entre os bancários.
Não viu ninguém.
- Que deserto é este? – gritou o Raimundo.
- Ninguém respondeu.
E ele, dando mais alguns passos, voltou a gritar:
- Ninguém quer nada! É por isso que os bancos são assaltados!
- Pois isto é um assalto! – falou o homem atrás dele.
Raimundo ficou amarelo, as pernas a tremerem, ameaçado a vertical, e balbuciou:
- Que concidência...
E caiu duro pra trás.

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OS TEMPOS MUDARAM (EDIÇÃO 84)

A velha, simpática e romântica figura do médico de família ou do médico de roça, tão bem lembrada no livro Aventuras de Um Médico de Roça, de Edmundo Bueno de Araújo, já pertence ao passado.
Meu avô, Pedro Fructuoso da Silva Pires, foi um desses médicos.
Ele pertencia aos quadros da antiga Estrada de Ferro Leopoldina Rallyways, ainda no tempo dos ingleses, que depois foi nacionalizada e virou simplesmente Estrada de Ferro Leopoldina.
O Dr. Pedro, contam alguns, conhecia tanto cada um dos seus pacientes e suas mazelas, que todos iam para a beira da linha e botavam a língua de fora, enquanto o trem passava e ele ia espiando as línguas, rabiscando receitas e atirando-as para cada um.
O médico de roça andava a cavalo e a pé, levava a maleta com o estetoscópio, algumas outras bugingangas e uns poucos remédios e ia de cada em casa, espontâneamente ou a chamado, fazendo consultas, partos e urgências.
Era, como se diz, “especialista em tudo” e, no geral, acabava conhecendo o que a medicina humana dele exigia.
Mas chegou o que se chama “progresso”.
Os tempos mudaram e, com ele, mudaram os médicos.
São poucos, hoje, os médicos que atendem em casa ou fora de seu consultório, clínica e hospital, salvo em algumas especialidades e casos em que a remoção do paciente é difícil, perigosa ou não recomendável.
Os pacientes modernos não têm mais direito a cama ou a ficar em casa, e tem de se descolar e, até, tem de enfrentar filas, como no caso do INPS.
Não vejo mal nem inconviniente nisso, posto que num país como o Brasil, de grande população e de muitas doenças, para usar uma imagem de Carlos Drumond de Andrade, os médicos brasileiros são poucos para o muito que fazer.
A única coisa que está “pegando” é que o médico foi engolido pelas engrenagens da vida moderna e perdeu o calor humano: assistiu, fez o que tinha de fazer, mandou o cliente para casa... e pronto.
O médico poderia fugir a essa manifestação, armando um esquema em que sua secretária mantivesse contatos com seus pacientes, para saber como andam as coisas, mantendo o médico sempre informado sobre cada caso, e prestando orientação, se necessária.

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RETRATO FALADO (EDIÇÃO 83)

Na famosa série de TV Havai 5-0, quando há muitas testemunhas de um crime, o inspetor Mac Gerit chama o desenhista e manda:
- Quero o retrato falado desse homem.
As testemunhas vão informando sobre as características do criminoso e o desenhista vai fazendo traços, até que chega a uma figura que corresponda as descrições.
E uma das testemunhas, coroando a eficiência do trabalho, afirma:
- É ele! Sem tirar nem por!
Prossegue o filme e ao final, a 5-0 prende o criminoso, cuja fisionomia coincide, mesmo nas minúcias, ao retrato falado.
Mas o cinema difere da realidade.
Luis Fernando Veríssimo fez uma crônica no Jornal do Brasil sobre esse tema e afirma que “(...) na vida real (...) o retrato falado nunca a cara do cara que acaba sendo preso”.
Tanto que - diz ele- o encarregado das investigações costuma mostrar o retrato falado para os detetives e recomendar que eles devem prender alguém que não se pareça com ele.
- Não podemos errar! - enfatiza.
Todo o trabalho de Luis Fernando é muito bem feito e ele cita testemunhas que informam que o criminoso tem a cara do Charles Bronson com o nariz de Maria Alcina ou uma mistura de cachorro Boxer, comandante da Varig e beque do Madureira.
O delegado, certa feita, repreendeu o desenhista:
- Da última vez que usamos um retrato falado para pegar alguém, a turma prendeu um orelhão.
Mas o mais espetacular da crônica é a conversa entre uma testemunha e o inspetor, com uma pergunta final do desenhista:
- O naríz era assim, um pouco mais ou menos como o seu inspetor.
- E as sombrancelhas?
- E os olhos?
- Os olhos claros. Como os ...
- Já sei. Como os meus. E o queixo?
- Parecido com o seu.
Aí é que o desenhista, que estava desenhando a cara do inspetor, rigorosamente conforme a descrição que a testemunha dava do criminoso, judiciosamente, perguntou:
- Inspetor, onde e que o senhor estava na noite do crime?

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UM CASA VERÍDICO (EDIÇÃO 82)

Cada qual conta uma estória.
- Vocês conhecem a do alemão do russo do americano, do japonês e do brasileiro?
E começou a contar:
Estavam num bar um russo de dois metros e meio de altura, um americano de dois metros e quarenta e nove e um alemão de dois metros e quarenta e oito. Todos, por coincidência, tinham um metro de largura. Três gigantes. Foi quando entrou o brasileiro. Um nanico, magricela e caolho, que foi logo dando um murro no balcão e berrou “Salta uma cachaça!” Virou a bebida de um trago e foi sentar-se num canto, espiando em desafio para os três gigantes.
O contador de estória dá uma bicotada no uísque para molhar a palavra e continua:
- Foi aí que chegou o japonês. Era outro brutamontes. Para os senhores terem uma ideia, os cinco homens que estavam no bar pesavam uma tonelada e 28 kilos, os 28 brasileiro.
Outra bicotada e continua:
-O japonês foi logo perguntando: “Aqui tem homem?” O alemão, o americano e o russo contestaram que sim. O brasileiro não disse nada. “Enfrento todos de uma vez, non!” desafiou o japonês. Logo o russo, o americano e o alemão saltaram, pondo-se de pé. Foi como um choque de trens. No choque deu-se terrível estrondo e caiu metade do prédio. Quando a poeira baixou, o russo o americano e o alemão estavam amontoados a um canto. O brasileiro cigarrava. O japonês, então, caminhou em sua direção e anunciou: “Agora é sua vez!” O brasileiro deu mais uma pitada. E levantou-se.
O contador para e fala:
- Agora, vocês vão ter uma surpresa.
Toma fôlego e fecha a estória:
-Aí o japonês deu um peteleco com o indicador no cocuruto do brasileiro, que caiu mortinho da silva.
Da nova bicotada e comenta:
- Afinal já era tempo de alguém contar um estória em que o brasileiro leva desvantagem.

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PROCURAÇÃO (EDIÇÃO 81)

Cananeu Ubatubas Putegrilas, mais baiano que brasileiro, de idade igual a do Cristo vivo, montador de burro bravo, solteiro por felicidade, que se esconde nas beiras do Córrego das Pacas, em Contendas do Sambura, na velha Bahia, porque nela nasceu e nela há de ser enterrado, sem jamais pisar terras estrangeiras, por este instrumento de procuração outorga a Ananias Barbuto Canibal, baiano desfibrado, de idade que ronda o número que não se pode declinar, entre os 23 e os 25 anos, que mora na cidade de Cambuze, se isto pode ser cidade, no Estado de Pernambuco, capital Recife, onde se ajuntam os rios Beriberi e Capibaribe para formar o Oceano Atlântico, poderes especiais para desposar na Igreja, de véu, grinalda, e cara lavada, perante padre piedoso e conceituado e no Cartório, perante Juíz de Paz, que tem de ser cabra de qualidades, a Srt. Grindélia Tropicão Leitão, moça donzela, de muitas prendas, bordadeira e cozinheira, lavadeira e costureira, brasileira, e perfumosa, de 16 aninhos contados no bastistério, que mora na Estrada das Vacas, pertinho de Bambuze, entre o canavial de Adão Preto e o alambique de João Pistoleiro, que “cana” das cabeceiras pra ninguém botar defeito, podendo produzir todos os atos que cabem no casório, respondendo aceito, sim, senhor, com todo o respeito, tanto para o padre como para o Juíz, sem falar com o Delegado, que não tem competência pra casar moça donzela, comprometendo-se o outorgado, tão logo terminado o casório a trazer Grindélia a este Córrego das Pacas, em burros separados e de bom lombo (o dela), sem trocar palavra, como se mudos fossem, sem olhar pros olhos dela, sem suspiros, numa marcha só, não podendo parar nem que chova peixeiras, com tempo contado de 38 horas, sem que o outorgante abra mão de um só minuto, que é tempo mais que suficiente para se fazer comunismo, defendendo-a de cobras venenosas, marimbondos chumbinho e cabras safados, trazendo-a até o pé de mim, invicta e moça, donzela, como a recebeu, ficando certo desde logo efetivamente certo fica, que o descumprimento de qualquer das condições faladas, especialmente a donzelice, será motivo mais que bastante para que o outorgante mate bem matada a pessoa do outorgado, tanto a formicida tatú como a chumbeira, a sua escolha, de forma que não lhe sobre uma tripa ou que só sobre a bonita, porque o outorgante tem suas prerrogativas, que hão de ser plena e honrosamente cumpridas, porque o outorgante e cabra macho e baiano a toda hora.

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PROVA DO PROVADO (EDIÇÃO 80)

Certa vez (contam-me) visitava o Brasil Antônio Ferro, homem de letras e diplomata português, recebido pelo Ministro Osvaldo Aranha.
Passando dias no Rio, surgiu boa camaradagem entre o visitante e o anfitrião, dado o convívio, os passeios e boa prosa.
Antônio Ferro, um dia, virou-se para Aranha e falou:
- Meu caro Ministro, já nos tornamos bons amigos. E gostaria de fazer-lhe uma pergunta que me recesse uma resposta franca e leal.
- Pois não.
- Diga-me, Excelência, por que é que os brasileiros gostam de contar anedotas de portugueses? Não parece a V. Exa. um comportamento desigual?
Osvaldo Aranha respondeu:
- Nada de hostil existe nessa atitude. O povo brasileiro adora seus irmãos portugueses. Mas objetivamente, digo-lhe que somos um povo alegre, que satiriza todas as situações, e, de outro lado, os portugueses são muito ingênuos e de muita boa-fé.
- A apreciação de V. Exa. deve ser correta. Mas não creio que nossos patrícios sejam tão ingenuos e de tão boa-fé.
Osvaldo Aranha disse a Antônio Ferro que exemplificaria.
E saíram os dois por uma rua central do Rio de Janeiro.
A certa altura, Aranha deteve Ferro pelo braço e disse:
- Aqui está o bar de um de seus patrícios. Vou provar-lhe.
Entraram , e Aranha, dirigindo-se ao caixa, pediu:
- Fósforos, por favor. Após receber os fósforos, Aranha virou-se para o caixa e falou:
- Noto que o senhor me deu uma caixa de fosforos com todas as cabeças viradas para a direita. Eu prefiro as cabeças dos palitos para a esquerda.
O português, ao receber a caixa de volta, explicou:
- Não temos. Todos os nossos fósforos são virados para a direita.
Sairam e, em seguida, entraram em um bar de um brasileiro.
Repetido tudo, quando Aranha devolveu a caixa, o brasileiro informou:
- Temos, sim, senhor. Esta caixa, de fato está com as cabeças dos palitos para a direita. Mas esta é para a esquerda.
Aranha recebeu os fósforos, pagou e retirou-se com o amigo.
Já na rua, falou:
- Aí está, Ferro, como lhe disse.
O dimplomata parou, espiou firme para Aranha, e exclamou:
- Ora, nada está provado!
- Como assim?
Ferro balançou a cabeça e concluiu:
- Podia ser estoque antigo...

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TRANPORTAÇÃO (EDIÇÃO 79)

Embora estejam lutando ha milênios, árabes e judeus tem duas coisas em comum: a desconfiança e o apego ao dinheiro.
Esta estória configura bem a desconfiança do judeu.
Dois deles se encontram na Russia e o primeiro pergunta ao segundo:
- Isaac, aonde vais?
- Vou a Sebastopol, Davi.
- Mentes. Dizes que vais para Sebastopol para que eu pense que vais para Moscou, mas, na realidade, vais para Sebastopol.
E esta, configura bem a desconfiança do árabe.
Saleme manda seu filho subir numa escada e atirar-se nos seus braços.
A criança sorri, antevendo uma brincadeira gostosa.
E salta e esborracha no chão.
Saleme, então, vira-se para o filho e sentencia:
- Isso e pra você não confiar em nimguem. Nem no seu pai.
Vai daí que (contam-me) Jacó, o judeu, devia um dinheiro a Salim, o árabe, que seria pago dai a dois dias.
Jacó perdera o sono, estava tresnoitado, e emagrecia a olhos vistos, por não ter condições de pagar.
Seu irmão Moisés falou com ele:
- Jacó, o que há com você?
- Não tenho dormido, porque devo um dinheiro a Salim e não vou poder pagar-lhe.
Moisés pensou que motivo tão caganifante não seria bastante para tirar o sono de ninguém, mas resolveu tomar uma atitude que resolvesse o problema de Jacó.
- Você vai me emprestar o dinheiro? - perguntou Jacó.
- E eu sou doido? – respondeu indagativamente Moisés, sentindo-se ofendido com a pergunta.
Em seguida, foi a janela e gritou para a janela da frente:
- Saliiiiim!!!
- O que e?
- O Jacó deve-lhe um dinheiro, mas não vai ter como pagar.
Falou, fechou a janela e voltou-se para Jacó dizendo:
- Agora, você pode dormir em paz. Quem não vai dormir é o Salim...

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PROBLEMAS EXISTENCIAIS (EDIÇÃO 78)

Entrou no boteco, passos firmes, e sentou-se ao fundo.
Em volta as mesmas caras de ontem.
O garção passou um pano sujo sobre a mesa suja e perguntou:
- Que é que vai?
- Caninha, da boa. Traga a garrafa.
Quando o garção trouxe a garrafa, não tendo com quem conversar, tomou a primeira “bicada” e falou com a própria garrafa:
- Veja você. Tenho problemas existenciais.
Mandou a segunda.
Continuou:
- Ora, se as nações do mundo se preparam para guerra e fazem a guerra e dizem que buscam a paz, acho que uma explosão atômica salvaria a humanidade.
Outro gole:
- Ficamos aqui a batizar os outros planetas. Marte, Júpiter, Netuno, Saturno...E se Marte para os marcianos, não tiver esse nome?
Mais um gole.
- Estive assistindo a muitos comícios. Os candidatos falam, falam, falam, e nada prometem. Como é que o povo vota em quem nada promete?
Mais outro.
- Engraçado que Adão não tivesse sido criança. Também, se Adão fosse criança quem é que tomaria conta dele?
Novo gole.
- Será que é verdade que Confúcio, filho de uma virgem com um raio de sol, nasceu aos 90 anos, de guarda- chuva ou é “papo furado” do Nelson Rodrigues.
Outro mais.
- Quer saber de uma coisa? Eu não converso com garrafa vazia.
Levantou-se, pagou e se foi.
Caminhou em ziguezague até a esquina.
Escorou-se num poste para firmar-se e exclamou:
- Problemas existenciais! São uma parada!
Apertou os olhos para refazer-se e voltou a exclamar:
- Este mundo me deixa tonto!

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OS SINÔNIMOS (EDIÇÃO 77)

Azar meu que, por dever do ofício, escrevo mais que você.
Mas você, quando escreve, assim como eu, lança muita coisa improcedente.
Porque todos nós pensamos que “sinônimos são palavras diferentes com significados iguais”, como aprendemos na escola.
Pois fique sabendo que a dupla portuguesa Roquete e Fonseca fez um dicionário que prova que “sinônimos são palavras diferentes com significados diferentes”.
Vejamos alguns sinônimos que usaríamos indistintamente: adormecer e dormir; alcunha e apelido; alçar e erguer; avistar, olhar, ver, enxergar, e divisar; e decapitar e degolar.
Vejam agora as diferenças:
Adormecer é deixar-se vencer pelo sono.
E dormir é conservar-se entregue ao sono. Simplificando: um homem adormece as duas horas e dormi até as seis. Ou este trecho de Vieira: “E como tardasse o esposo, adormeceram todas, e dormiram”.
Alcunha é apelido injurioso.
Apelido não é.
Alçar é levantar algo acima de sua posição normal: os olhos, as mãos, a voz etc.
Erguer é levantar pondo em pé.
Avistamos ao longe ou no meio de uma multidão.
Sem fim determinado, olhamos.
Ver é o efeito de nosso olhar.
Enxergar e ver com dificuldade.
E divisar é ver discernindo, distinguindo, conhecendo distintamente.
Decapitar é cortar a garganta ou o pescoço por sentença da autoridade da justiça.
E degolar é o mesmo ato por qualquer motivo que seja.
São as chamadas sutilezas do idioma, que fazem a gente se sentir cada vez menos sabedora das coisas.

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O POUCO MUITO (EDIÇÃO 76)

Conta um anedota imperial que três homens conversavam sobre o grande ideal de suas vidas.
Disse o primeiro:
- Eu quero dinheiro amontoado da altura do Himalaia.
Disse o segundo:
- Eu quero dinheiro o quanto fosse possível escrever com a água do mar transformada em tinta.
- Diante disso, o terceiro calou-se.
Perguntaram-lhe:
- E você?
- Coisa a toa...
- O que?
- Bem, eu queria ser herdeiro de vocês dois.
O homem só se realiza parcialmente. Porque é da natureza humana o mais querer, independentemente do que se possui.
A atingência do ideal seria a própria atingência da felicidade.
Diz o poeta que à felicidade nos opomos sempre onde não estamos.
Eu estava justo nessas indagações, quando me surgiu um homem que deseja pouco.
Nada de grandezas faraônicas, nem riquezas de fazer inveja ao velho Patinhas.
- Quero pouco- falou.
E emendou:
- E acho que posso morrer sem atingí-lo.
E falou:
- Coisa à toa. O que eu quero é um lugar sossegado, muita cachaça, um banquinho, um amigo e um baralho velho, bem ensebado para jogar truco.

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A MÃE DO REI (EDIÇÃO 75)

Vaidoso:
- Sou um homem superior!
Emproado:
- Tenho todas as qualidades de um grande líder!
Presunçoso:
- Se eu entrasse na política, o povo me consagraria!
Jatancioso:
- Vê, tudo foi idéia minha!
Prosa:
- O mulheril não me aguenta!
Prosa:
- E seguia pela vida, assim, usando sempre a primeira pessoa do singular nas situações mais coletivas – eu, eu, eu, eu... – sabendo mais que todo mundo, sem a menor noção do que seja humilde dono de todas as verdades de ouro, como se as tocasse com pedra filosofal.
De repente, nada mais que de repente, começou a engordar, como se estivesse fermentado.
Uma gordura galopante e agressiva, que lhe dava 500 gramas por dia.
Resolveu ir ao médico.
Este, após uma série de exames, sem resultado, resolveu apelar para o absurdo, e deu-se o absurdo.
- Nao sei como comunicar-lhe...
- Câncer, doutor?
- Não, não é. E não sei se é pior ou melhor.
- Desembucha logo!
- Bem... Vá lá! O senhor esta grávido.
- Quantos meses?
- Ué?! O senhor me faz esta pergunta, como se o fato fosse normal! Um homem gestando uma criança! Estamos diante de um fenômeno! Esta notícia vai causar furor no mundo inteiro!
- Em se tratando de um como eu, de singulares qualidades e notáveis feitos, tudo pode acontecer, doutor. Este fenômeno, aliás, pode ser chamado de fatalidade. Tinha de ser eu!
Tomou fôlego e informou:
- E fique sabendo que vamos mudar de regime.
- É a primeira vez que vejo o senhor usar plural... Mas é claro que o senhor vai mudar de regime.
- Eu disse vamos, porque é o país que vai mudar e não eu. Estou me referindo ao regime político.
- Como assim?
- Se é meu filho, se vai nascer de mim, não cabe dúvida de que estou gestando Sua Majestade Sereníssima, o Rei!

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AS RAZÕES (EDIÇÃO 74)

-Meu nome é Antônio de Souza, um nome vulgar, mas me chamam de “Tonho”, apelido que não me causa gosto nem desgosto. Fui menino pobre. Mas fui menino, isso eu garanto. Joguei pelada de rua, briguei, peguei bicho-de-pé, tomei banho nos córregos, matei aulas, brinquei de comoniboi, fumei escondido, furtei mangas, joguei birosca, soltei papagaio.
-Na quadra da juventude, fiz o que devia e o que não devia fazer. Mas a idade é para isso mesmo, para experimentações. Guardo bem guardadas as boas lembranças. E o que me foi cruel não me deixou complexos nem recalques. Tenho a mente livre como um passarinho.
-Hoje sou homem. A vida corre e eu não a compreendo. Também não quero saber. Sou parte desta fauna. Os problemas existenciais, eu os discuto apenas por discutir, porque existo ao largo deles. Me rio dos puros e das virtudes. Me rio dos pecados e dos pecadores. Estou acima e além das preocupações humanas, porque “a virtude está no meio”, e este é o tempêro de Buda. Violência? Eu não a quero e não a pratico. Economia? Não a entendo e nem quero entendê-la! Estou acima e além das preocupações humanas.
-O que virá? O que nos reserva o futuro? Estamos próximos do fim do mundo? Sou um ator que vai representando sem conhecer o texto. O “ponto” vai me “soprando” e eu vou repetindo. Mas não confio no espírito crítico da platéia, e não me empolgo com o aplauso nem me infelicita o apupo. Só sei que quando a morte chegar eu estarei pronto para enfrentá-la. Então, eu lhe direi: “Leva esta carcaça para onde quiser, ossuda, e fique sabendo que estou feliz como feliz eu fui a vida inteira”.
Foi aí que o outro interrempeu-o:
-Chega! Isso é filosofia de botequim!
-E nós não estamos num botequim?
-Estamos. Mas nós viemos aqui pra beber ou pra conversar?

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MORTE E BIS (EDIÇÃO 73)

Na boca da noite um tiro e um gemido. Isidoro tombou para a frente, sangrando com abundância. O criminoso fugiu na madrugada.
A morte foi muito sentida, porque Isidoro, bom cearense que era, era também um homem de caráter, honesto, trabalhador e comerciante próspero. Prestigioso e prestigiado. No ramo de secos e molhados.
Muita gente no velório. Lá para as tantas entra na sala, vermelho qual perú natalino, puxando um fogo terrível, o Jacinto, velho amigo do falecido.
Jacinto empunhava uma garrafa da conhecida aguardente Tijolo Mole, a qual sua boca visitava de instante a instante.
Já na brasa - brasa escandalosa até - a cada novo gole, o recém-chegado mais na brasa ficava.
De repente - surpresa e pavor!
- Isidoro. O defunto. Põe-se sentado!
Foi uma correria dos diabos!
No corre-corre, Dona Felisbina, anciã de um século menos dois anos, da um salto de doze metros, batendo o record mundial (não homologado...), foi da sala ao meio da rua. Por infelicidade, caiu sobre uma vaca que passava e foi encontrada, três dias depois, em plena selva amazônica...
Somente Jacinto, cabra valente que não teme defunto, nem alma do outro mundo, ficou na sala, com a garrafa na mão, puxando largas baforadas do seu cigarro de palha.
Isidoro, o defunto, avançou firme para o seu amigo. Jacinto não arredou o pé: Estava disposto a tudo - até a matar o defunto outra vêz.
Mas. Nova surpresa: Isidoro, de subito, arranca a cana das mãos de Jacinto e traga um gole sem precedentes... Lá se foi meia garrafa!
Jacinto, naturalmente, ficou indignado com intimidade tão rude, ainda mais que partindo de um falecido...
Não conversou. Não disse meia palavra.
Irado, arrebatou a garrafa de “Tijolo Mole” de Isidoro e passou a bater neste com a dita, até matá-lo, definitivamente...
E o velório recomeçou com novo ánimo.
E no dia seguinte ocorreu o enterro, com banda de música e tudo, com Jacinto a frente, agora herói municipal, com nova garrafa de “Tijolo Mole” na mão...

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A VINGANÇA (EDIÇÃO 72)

Moço simples, humilde, saiu daquí há anos e foi para o Rio de Janeiro.
Serviço militar, aliado a ansia de mudar de ambiente, em busca do melhor.
Cansou-se do ramerrão.
Rio de Janeiro, sabe-se, é difícil para quem tem dinheiro e inviável para quem não tem.
Arranjou trabalho e deu duro, anos a fio, numa vida de cachorro, levantando-se de madrugada e voltando a noite para casa, caindo numa rotina diferente a nossa, maior e pior.
Não teve nesses anos, senão um cinema, de quando em quando, encontros com garotas, nem feias nem bonitas, todas sem tempêro, e sua paixão pelo Flamengo, enfeitada pelas tardes de sol do Maracanã, de pavilhões e tamborins da alma rubro-negra.
Um dia. Deixando de lado o ideal de uma vida mais alta. Tão desejada e nunca tão distante, junta os trens e volta para o Vale do Aço.
Alguém já disse (e confirma-se mais uma vez) que ninguém bebe a água do Vale só uma vez.
Hoje, está aquí, a minha frente, já estabelecido, com negócio modesto, mas seguro, que lhe dá tranquilidade.
Trabalha menos e está ganhando dinheiro.
E se possui defeitos, os antigos e os novos adquiridos, guarda, ainda, a simplicidade e atributos que daquí levou e que o sustentam o amigo de sempre.
- Vou ganhar muito dinheiro e voltar para o Rio.
- Pra que? Vai voltar para aquela vida de cachorro?
Ela espia para o chão, pensa um pouco espia para mim e depois diz:
- Vou voltar para vingar-me...

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CASO PERDIDO (EDIÇÃO 71)

Por mais rico e mais honesto, não há homem no mundo que não tenha ouvido com justiça ou injustiça, esta ameaça:
- Se você não pagar até amanha, eu mando para o protesto.
Geralmente, paga-se, porque, não raro, prefere-se um prejuízo a humilhação de um protesto.
- Esta frase, porém, é mais uma bravata que uma intenção.
Pode-se mesmo dizer, numa transportação bíblica, que muitos são os ameaçados e poucos os protestados.
Acompanhemos a trajetória de um homem modesto, de negócios pequenos, homeopáticos, que sempre agiu com honestidade, e que, de repente, se ve diante de uma dificuldade irremóvel.
Chega o aviso do Cartório de Protestos.
Ele se agita.
Faz as contas e vê que não dá.
Em seguida, no primeiro prurido de desespero, surge também a primeira ponta de capitulação, no caso, desonestidades: um assalto... a falsificação de um cheque...
Seu anjo da guarda protesta:
- Nada disso!
Vai ao cartório pedir prazo.
A resposta é a de sempre:
- Sinto muito, mas as instruções são rigorosíssimas.
O nosso herói chora riscinas, inunda o cartório.
E a noite, não dorme, rola na cama e pensa em suicídio.
No dia seguinte, recorre a todos os amigos certos, que se tornam incertos.
Nada Feito.
Corre o Protesto.
Este é um caso, como outros, de “primeira vez”.
Daí pra frente ele já não liga.
E os protestos se sucedem.
Até faz o hábito, depois, o costume de passar sempre pelo cartório e, após empurrar a porta, perguntar:
- Como e que esta a barra, aí?
Mais um caso perdido.

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A ARTE DE VENDER (EDIÇÃO 70)

Pereirinha, o vendedor, estava na pior.
Há dias que não vendia nada – sua mercadoria era consórcio de automóveis, enquanto outros faturavam barbaridade.
Resolveu “atacar” um padre de um colégio, eleito entre muitos.
Em três dias não conseguira sequer falar com ele.
Ora homem rezava, ora comia, ora repouzava – estava sempre ocupado.
Mudou de estratégia.
Na primeira Missa programada para o padre, lá estava ele, na primeira fila;
contrito, ferveroso, ao lado da pasta sobre o banco.
Nos três dia seguintes ouviu três missas, sempre na primeira fila, sempre ao lado
da pasta, sempre com o mesmo padre.
Quatro da manhã, e lá estava ele, único “apaisana” no meio de padres e irmãs
de caridade.
Quando terminou o ofício, o padre, convidou-o para um café.
E lá se foi para o refeitório do colégio, ainda único no meio dos religiosos.
Interessaram-se por ele.
Falou:
- Sou vendedor, sabem? No começo, tudo corria mal. Pedi muito a São Judas Tadeu. Estou vendendo horrores! Tenho vindo a missa para agradecer.
- O que é que você vende?
- Nada que interesse aos senhores.
No dia seguinte, lá estava ele, outra vez, no refeitorio.
Interessaram-se especialmente.
E ele, entre murmúrios de que “não é coisa que se venda para padre”, começou a
expor o consórcio, sua seriedade, seu sentido de poupança, essa conversa de vedendor.
- Nada que interesse aos senhores.
Deu no que deu.
Naquela semana, Pereirinha bateu todos os recordes de venda.
Só padre ele tinha “faturado” oito!

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O DILEMA (EDIÇÃO 69)

Mandou afixar pequenos avisos: fiado, só amanhã; o fiado morreu ontem; não passe sem entrar, não entre sem comprar, não saia sem pagar.
Para fechar, o clássico: vendi a dinheiro (mostrando um homem gordo, rico e próspero, fumando charuto) eu vendi fiado (mostrando um homem magro, amarelo, esfarrapado, tal e qual a figura de Jeca Tatu).
“Seu” Manuel mandou abrir as portas. (Daí para a frente aconteceria como na anedota.)
O primeiro freguês, um bêbado, pediu um pastel.
Foi servido.
Espiou para o dono do bar e perguntou:
- O senhor (hip) poderia (hip) trocar este pastel por uma cachacinha (hip)?
- Cachacinha “hippie”?
- “Hippie”, não. De cana, mesmo (hip).
“Seu” Manuel recolheu o pastel e serviu a cachacinha.
O bêbado tomou-a de um gole.
Fez careta, cuspiu para o lado e agradeceu:
- Obrigado, uma ova! – bronqueou “seu” Manuel. Tem de pagar a cachacinha!
- Ué! A cachacinha (hip) eu troquei pelo pastel (hip).
- Então, pague o pastel!
- Eu não comi pastel (hip) nenhum...
E, após jogar essa lógica irrefutável, partiu, deixando o dono do bar parado, com exclamações e interrogações povoando sua cabeça.
Daí a pouco, entra um amigo e “seu” Manuel pergunta-lhe:
- Como é que são feitas as vendas?
- A dinheiro ou fiado.
- Todas?
- Todas.
- Engraçado...
- Engraçado, o que?
“Seu” Manuel coçou a cabeça e disse:
- Pois eu acabo de fazer uma venda que não é nem a dinheiro e nem a fiado...

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PROVA DO PROVADO (EDIÇÃO 68)

Certa vez (contam-me) visitava o Brasil Antônio Ferro, homem de letras e diplomata português, recebido pelo Ministro Osvaldo Aranha.
Passando dias no Rio, surgiu boa camaradagem entre o visitante e o anfitrião, dado o convívio, os passeios e boa prosa.
Antônio Ferro, um dia, virou-se para Aranha e falou:
- Meu caro Ministro, já nos tornamos bons amigos. E gostaria de fazer-lhe uma pergunta que me recesse uma resposta franca e leal.
- Pois não.
- Diga-me, Excelência, por que é que os brasileiros gostam de contar anedotas de portugueses? Não parece a V. Exa. um comportamento desigual?
Osvaldo Aranha respondeu:
- Nada de hostil existe nessa atitude. O povo brasileiro adora seus irmãos portugueses. Mais objetivamente, digo-lhe que somos um povo alegre, que satiriza todas as situações, e, de outro lado, os portugueses são muito ingênuos e de muita boa-fé.
- A apreciação de V. Exa. deve ser correta. Mas não creio que nossos patrícios sejam tão ingênuos e de tão boa-fé.
Osvaldo Aranha disse a Antônio Ferro que exemplificaria.
E saíram os dois por uma rua central do Rio de Janeiro.
A certa altura, Aranha deteve Ferro pelo braço e disse:
- Aqui está o bar de um de seus patrícios. Vou provar-lhe.
Entraram, e Aranha, dirigindo-se ao caixa, pediu:
- Fósforos, por favor. Após receber os fósforos, Aranha virou-se para o caixa e falou:
- Noto que o senhor me deu uma caixa de fósforos com todas as cabeças viradas para direita. Eu prefiro as cabeças dos palitos para esquerda.
O português, ao receber a caixa de volta, explicou:
- Não temos. Todos os nossos fósforos são virados para a direita.
Saíram e, em seguida, entraram em um bar de brasileiro.
Repetido tudo, quando Aranha devolveu a caixa, o brasileiro informou:
- Temos, sim, senhor. Esta caixa, de fato, está com as cabeças dos palitos para a direita. Mas esta é para a esquerda.
Aranha recebeu os fósforos, pagou e retirou-se com o amigo.
Já na rua, falou:
- Aí está, Ferro, como lhe disse.
O diplomata parou, espiou firme para Aranha, e exclamou:
- Ora, nada está provado!
- Como assim?
Ferro balançou a cabeca e concluiu:
- Podia ser estoque antigo.

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O PINTOR (EDIÇÃO 67)

Nada mais que de repente, Tio Pequetito resolveu intrometer-se nos caminhos da arte.
- Vou pintar!
Todo mundo ficou alvoroçado.
- O velho está caducando!
Uma coisa não lhe poderia ser negada: Tio Pequetito possuia extraordinária habiliade para fazer de tudo.
Dizem que ja foi boiadeiro, carpinteiro, mecânico, torneiro, parteiro, extrator de dentes, poeta, alfaiate, rabula—o diado!
- O que cada um fizer, eu faco.
E fazia, mesmo.
So que seu “papo” era maior que seus feitos.
Mas aquela era demais.
E Tio Pequetito passou a mão em meia duzia de ripas e pregos e preparou o cavalete.
Depois, ele próprio esticou a tela, misturou as aquarelas, fez os pincéis.
Esqueci-me de dizer que o lugar é Caratinga.
E Tio Pequetito resolveu pintar a Ituana, uma pedra bonita, marco do lugar, a Ibituruna de lá.
Numa bela manhã, lá estava ele pintando, pintando, pintando.
Depois de mais de 40 horas de trabalho, deu dois passos a ré, contemplou a pintura e exclamou:
- Que beleza! Se Miguel Angelo tivessi pintado paisagens, lamberia meus pés!
Deus um berro:
- Mulher!
Ela veio correndo:
- E Tio Pequetito, apontando o quadro, perguntou:
- Que tal?
Ela espiou, espiou e respondeu:
- Nao sei o que e isso.
- Burra! Sempre fostes burra! Um primor destes, e tu não sabes o que é! Não reconheces a beleza! Tapada!
Foi justo nesse momento que chegou Tião, o leiteiro, um crioulo comprido, canelas secas, com as calças arregaçadas.
- Tião meu filho, olha esta pintura. Me diz o que é.
O crioulo bateu os olhos na tela, torceu o pescoço para um lado e para o outro, e falou:
- Olha seu Pequetito...
Fez uma cara intrigada e emendou:
- Se não é uma brabuleta, é uma vaca deitada...

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O DOIDINHO (EDIÇÃO 66)

Um dia qualquer (não me lembro bem), estávamos trabalhando, aqui, na redação, e ele entrou e foi falando:
- Não concordo! Não concordo!
Seus olhos estavam fora das caixas, sua voz era veemente e seus gestos decididos e firmes.
- Não concorda com o que?
Ele parou de falar, meteu a mão no bolso, sacou um papel e, adiantando-se, exibiu-o ao perguntador, apontando um escrito qualquer com o dedo.
- Não concordo com isso aqui. Já falei com o advogado que aquele delegado de polícia não vale nada, é um corrupto, e quero as coisas as direitas.
Foi então que se percebeu que se tratava de um tantã, um débil mental, com fixação num episódio qualquer, que envolvia advogado e delegado de polícia.
E do jeito que entrou se foi.
Desse dia em diante, até ficamos acostumados com os seus aparecimentos; ele vinha, dava a bronca – sempre a mesma – e se ia.
Até que um dos nossos resolveu enfrentá-lo.
Na vez seguinte, nosso companheiro, alto, magro e narigudo, adiantou-se e foi interpelando:
- Não concorda! Não concorda! Pois tem de concordar!
O tantã ficou teso, parado, ouvindo.
- Pois fique sabendo – continuou o narigudo – que as manifestações osmóticas, periféricas e peripatéticas estão na razão direta das lucubrações hiperbólicas, decorrentes das carismáticas emanações sensoriais e psicopolítico-filosófico-carnavalescas.
Isto é: disse uma porção de besteiras, balançou a cabeça, concordando, e partiu.
Toda vez que ele aparecia, o narigudo não deixava ele falar: despejava sua verborragia sobre ele.
- Esse doido vai desaparecer da nossa vida – sentenciou o narigudo.
De fato, ele levou um bom período sem dar as caras.
Até que um dia, a tarde, trabalhavamos, quando ouvi-se um “psiiiiu, psiiiu” vindo de uma janela.
Olhávamos na direção do chamado e lá estava a cara do tantã.
Ele, então, perguntou:
- O doidinho taí?

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O BOM TIÃO (EDIÇÃO 65)

Como numa roda muito se falara em Tião Nunes, um cidadão, que não o conhece, perguntou:
- Quem é Tião Nunes?
E ninguém soube defini-lo, ou melhor, todos tentaram fazê-lo, mas tais eram as contradições e divergências que o grupo não atingiu a um contra-ponto.
Vou tentá-lo agora.
Devo tê-lo conhecido no tempo de escola, e Carioca (o seu apelido mais comum dos muitos) era um bugrezinho tinhoso, sarará, caganito, que jogava futebol como poucos e brigava como ninguém.
O tempo passou e Carioca dedicou-se a várias atividades, que variam desde jogador de futebol (e foi grande) até colunista social, passando pela de radialista.
E são essas três que quero citar sobre essa popular e contraditória figura, que, embora alvo de crítica aquí ou alí, é homem de boa vontade, sempre pronto a servir.
Como jogador de futebol, um ponta-esquerda de encher os olhos, Carioca deslumbrava a plateia pela sua alta combatividade, sua fibra, sua apurada técnica...e muitas brigas e muitas expulsões!
Como colunista social, escreveu trabalhos “notáveis” (Miguel Faria tem todos guardados), frequentou festas, patrocinou concursos de beleza e chegou até a recunhar algumas enciclicas, depois que fez o Cursilho da Cristanidade.
No rádio, faz tudo: noticiário, transmissão de futebol, reportagens, comerciais, a Hora do Angelus, sendo pau para toda obra.
Só para completar, lembro-me de uma passagem, no Rotari Clube, quando Carioca entrevistou uma moça norte-americana, tendo o Célio Coutinho como intérprete.
Com voz melosa, ele disse:
- Moça linda...linda...e chama-se Linda!
E, após fazer algumas perguntas e receber algumas respostas, o nosso herói virou-se para o Célio e pediu:
- Pergunte se ela fala alguma palavra em nossa língua.
Célio perguntou e recebeu resposta negativa.
E o Carioca, com ar admirado, retomou o microfone e fechou a entrevista:
- Incrível, ouvintes, ela não fala nem uma palavra em Tupi-Guarani.

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O CORINGA (EDIÇÃO 64)

- Vou filar. Se me sai, agora, um curinga, liquido esta partida.
Prendeu a respiração e puxou a carta.
- Miserável!
- Se urubu cantasse, eu tinha um casal na gaiola.
Mais um momento, e um outro, adversário do caçador de curingas, exibiu suas cartas. Encerando a partida.
- Quantas já jogamos?
- Seis.
- Devo ser o maior “pé-frio” da história. Até agora não me veio um único curinga.\
- Dá pra mais uma?
Espiou para o relógio e assentiu com a cabeça.
Jogavam desde a tarde, pela noite a dentro, e já madrugava.
Enquanto as cartas são dadas, a gente percorre a varanda com vasos de plantas pelos parapeitos, garrafas, copos e pontas de cigarros pelo chão.
Na sala, a dona da casa assistia um filme na TV.
O jogo recomeça.
- Ainda não veio...
- Vocês leram sobre aquele escritor que foi expulso da Russia?
Ninguém se manifesta.
- Um tal de Solieniscou Sojelnitsi ou Solnejisc... Como é o nome dele?
Ninguém ajuda.
- Sujeito macho! Escreveu um livro que...
- Você veio aquí pra jogar ou pra conversar?
- Já saiu o curinga aí?
- Neca de pitibiribas!
Estou saindo para a sétima partida. Invicto!
- É... Você está “seco”.
- Fumação miserável! A mulher de manhã vai ficar “buzina”.
- Do chacrinha? Ah! Ah!
- Piada besta.
- Viva! Até que enfim!
Levantou-se, começou a saltar e dançar, sempre gritando.
- Um curinga!
- Cara-de-gato?
- Não. Dois de paus!
De repente, chamou a dona da casa:
- D. Maria.
Ela veio
- Arranje-me, por favor um pão em duas bandas.
Ela trouxe.
Tocou o curinga entre as duas metades e comeu-o.

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A HORA CERTA (EDIÇÃO 63)

Sucede que se namoravam na sala, ao lado um do outro, num sofa, luz acesa (eu sei que a anedota é velha, porque, hoje, ninguém mais namora, desse jeito), quando despencou uma chuva violenta, dessas que molham justos e pecadores.
Ela sugeriu:
-Por que é que você não dorme aquí hoje?
Ele quedou-se um pouco pensativo e topou:
-Durmo, sim.
Mas logo aconteceu o inusitado.
Saiu correndo pela porta e meteu-se na chuva.
A moça ficou alí, parada, sem entender aquela.
Daí a pouco, ele voltou molhado como pinto, com um embrulho debaixo do braço.
E ante a expressão indagativa dela, exclareceu:
-Fui em casa buscar o pijama.
Já é ser fanático.
De minha parte, nunca me enfiei num pijama, esse aparelho inventado como roupa de dormir.
Bob Hope imortalizou-o numa piada.
Certa noite, no Alasca, fazia tanto frio, mas tanto frio, que caí da cama e quebrei o pijama.
Lembro-me a propósito que, há alguns anos, fazendeiro de Virginópoles, homem conservador (como se fosse possível um virginopolitano não conservador), que, tendo adoecido, foi trazido a esta cidade para tratamento médico.
Para dormir, ele usava venerandas ceroulas que desciam até as canelas, amarradas com cadarço.
O filho, atencioso, deu-lhe de presente um pijama.
Ele ficou tao encantado, apaixonado até, pelo pijama, que meteu-se nele e não mais saiu.
Fazia refeições de pijama, ía ao café, circulava pelos arredores.
Aquilo começou a incomodar os hóspedes e, dizia-se, tirava o gabarito da pensão.
O proprietário, então, resolveu ter uma conversa delicada com seu mais ilustre hóspede.
E começou assim:
-O senhor gosta de pijama, não é, seu José?
-Gosto sim, senhor.
-Escuta uma coisa: o senhor nunca o tira?
O fazendeiro respondeu:
-Tiro, sim uai!
E após uma paradinha de pelé:
-Mas só na hora de dormir...

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OS SONHOS DO HOMEM-FUMAÇA (EDIÇÃO 62)

O importante na vida é ter sucesso.
Nos negócios. Nas letras. Nas artes. Em qualquer atividade.
É importante também ser patriota, dentro do apelo do poeta: “Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste”.
E o cheiro de mato. E o cheiro da terra. E emocionar-se com o telúrico espetáculo da chuva caindo e tornando a terra fértil e dadivosa. E, depois, como já disse alguém, ‘ouvir o milho crescer”.
É importante saber, ser inteligente, distinguir-se do vulgo ou ter bom gosto, nobreza, como o ouro sobre o azul.
Assim como é bom amar a vida, pretendê-la aventurosa e venturosa e cortejar ou desejar ou desejar-se a contemplação estética das mulheres bonitas.
Assim caminha a humanidade: olhando para frente e para o alto, buscando elevar-se social e culturalmente, afirmar-se como gente de bem e realizar-se a pleno como “homo sapiens”.
Por isso é que as propagandas de cigarros fazem seguidos apelos aos sonhos, anseios, vaidades, pretensões e ideais humanos, para vender mais cigarros.
“Vá com Hollywood... ao sucesso!” – você pode não ter sucesso para aparentar sucesso.
“Os homens vão para o Arizona!” – e você não vai, porque não tem nem as 20 mil pratas para o depósito compulsório, mas, a cada tragada, se sente participando de bravos e violentos rodeios.
“Um raro prazer...” – e você se imagina com Raquel Welch numa ilha paradisíaca, fumando Charlton e fazendo coisas que eu não posso dizer aqui.
Com os cigarros Continental você tem “sabor bem Brasil”, segua a “preferência nacional”.
E fumando Galaxie você se realiza intelectualmente, porque este é o cigarro da “minoria inteligente”.
Para ilustrar os anúncios, movimentados e de intenso e vivo colorido, a gente vê mulheres lindas de estalar, guapos rapazes praticando surfe, jogadas sensacionais de futebol e lances emocionantes de corridas de automóveis, cavalos bravios, paisagens selvagens, ambientes requintados etc.
Agora , você pergunta, como no anúncio: e onde estão os aviões, carrões e helicópteros de todos os anúncios de cigarros?.
Ora, você está fumando, cada vez mais e mais.
E respondo, perguntando: e precisa?

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UMCASO A PENSAR (EDIÇÃO 61)

Entrei e sentei-me na terceira cadeira do salão.
Para evitar qualquer lance e irreparável a curto prazo, fui logo advertido:
- Diminua um pouco as costeletas e façaa o pé do cabelo. Só isso. Se vocè der uma só tesourada no alto, dou uma bronca sem tamanho.
Cabelereiro não pode ter uma “deixa”.
Logo ele falou:
- O corte de cabelo é tabelado pela sunab, senão eu lhe cobraria mais barato.
Começou a trabalhar e prosseguiu:
- Não sou contra o tabelamento, não, sabia?
Eu não sabia.
- Acho que a sunab deveria fixar a tabela – continuou -, mais deichasse que nós, profissionais, pudessemos fazer uma tabela paralela e nominal.
Não intendi.
- Bem, eu lhe explico. A tabela, a qui, diz o seguinte: Barba – Cr$ 80; cabelo – Cr$ 130. Só para dar um exemplo: o Jonas Lima entraria na tabela paralela. Eu escreveria assim: Jonas Lima – barba – Cr$ 800; cabelo – Cr$ 1500.
- Ué. Por que?
- Ora, não é justo um homem cheio de cabelo como ele pagar o mesmo preço que o Bitaca, que só tem uns fiapinhos.
- Bem, em princípio, parece que você tem razão.
- O Hermírio é outro que eu taxaria alto.
- Parece-me que o Hemírio é, mais ou menos o mesmo cabelo do Bitaca.
- É... mais e o “papo”?
- Que “papo”?
- Num salão, mulato, quem tem direito a falar é o barbeiro, o oficial. Quando o Hermírio chega aqui ele consegui fechar a boca dos barbeiros todos.
- Hum...
- E o coronel Altino?
- Quequitem?
- O cabelo dele seria barato, porque ele corta baixinho e a gente, se quizer, pode até rebaixar o maçarico. Um minuto... e pronto.
- ...
- E o Nilo Costa, conhece?
- Muito.
A barba dele deveria custar umas 5 mil pratas.
- Tanto assim?
- Claro. Com aquelas bochechas imensas, quando a gente termina um lado lá se foi meio dia de serviço.
A essa altura ele terminara o corte do seu cabelo e sai dali convencido de que a tabela livre paralela seria medida bastante justa, que mereceria a atenção do próprio sindicato da clase.

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O COMEDOR DE GAFANHOTOS (EDIÇÃO 60)

Ele me conta que sempre deu sorte com as mulheres, mas que, agora, está na fossa.

Ouvi sua história.

Estavam os dois sob um caramanchão, a lua a salpicar o chão de estrelas, como na canção de Orestes Barbosa.

Juras, beijinhos, eis que, de repente, nada mais que de repente, aconteceu.

Foi quando ele disse:

- Proparoxítona!

Nao sei por que alguém diria esta palavra num lance romântico, nem lhe perguntei.

O certo é que seu “roach” desprendeu-se e foi cair no decote dela, justamente – como direi? – entre o Pão-de-Açúcar e o Morro da Urca.

Ela deu um pulo, assustada.

- Que foi? - perguntou ele, despistando.

- Um bicho caiu aqui.

- Eu vou tirar.

Pegou delicadamente a beira do decote e espiou la dentro.

Primeiro, estremeceu: nao era um simples tesouro de piratas do Caribe, mas as próprias minas de Salomão.

Mas ele estava desmasiado preocupado com seu “roach” para entregar-se ao prazer da contemplação estética.

Ela pousou o dedinho por fora sobre o bondinho, que estava a noroeste do Pão-de- Acúçar.

- Estou vendo.

- Que bicho que é?

Pensou depressa numa série de bichos: barata, besouro, borboleta, até camelo.

E acabou falando um em que nao pensara:

- Gafanhoto!

- Que horror!

- Agüenta a mão que eu o tiro já daí.

Introduziu o fura-bolo e o pai-de-todos, os dedos em pinça, como os batedores de carteiras, até que pescou o “roach”.

Tirou-o e – zás! - jogou-o na boca.

Ela fez uma expressão de nojo.

- Você come gafanhotos?

Ele fez que sim com a cabeca e acrescentou:

- Como. Sou tarado por gafanhoto! Uma delícia!

Nao houve mais papo, muito menos beijinhos.

Daí pra frente (ele acha que a história correu de boca em boca), nunca mais deu sorte com as mulheres.

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DIAGNÓSTICO (EDIÇÃO 59)

- Bota a língua pra fora – ordena o médico, com ar autoritário.

O doente toma filego, leva a cabeça para trás e põe meio metro de língua fora da boca.

O médico da uma olhadela, faz uma expressão pessimista, enfia uma espátula na garganta do paciente.

- Fígado – sentencia o doutor. Positivamente, o senhor não anda com o fígado em dia. Vou lhe receitar uns remédios...

Pega a caneta, rabisca uma porção de coisas ilegíveis, dá um tapinha no ombro do doente, recolhe os instrumentos e sai.

O moribundo reclina-se sobre o travisseiro e, aliviado, ouve o roncar potente do Ford do médico que se afasta. De fato, o nosso heroi sofre bastante. O pior é que, mentalmente, também sofre. Acha que os seis médicos que o visitavam todos os dias estavam macomunados para dizer que ele está doente do fígado.

Pior: que sua pressão está mais baixa que a voltagem elétrica de Mantena. Por isso, e por muita coisa mais, dobra solenemente a receita e atira-a para debaixo da cama.

Chega outro médico. O mesmo ritual.

Quando o doutor abre a boca para falar, ele pergunta:

- Fígado, doutor?

O médico olha pra ele e responde:

- Qual nada! Sei fígado esta tinido! Mas é quase isso, é vesicula.

Nova receita. Novos remédios. Desta vez tomados.

Com dois dias virou outro homem. Alegre, bem disposto e com um apetite digno de um gastrônomo de nomeada.

Uma semana depois, morre, entre convulsões terríveis, de uma crise de fígado...

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MOMENTOS DE SAUDADE (EDIÇÃO 58)

Um amigo apareceu, assim, de repente, com o livro “O Jornal de Antônio Maria” e eu tomei-o dele, na marra, guardei-o na gaveta e disse-lhe que o livro lhe seria devolvido depois que eu o lesse.

E à noite, em casa, li 15 ou 20 páginas, sei lá, e reencontrei-me com um dos maiores jornalistas, poetas e cronistas brasileiros.

Azar seu, se não conhece Antônio Maria, porque você nao se “amarrou” nele, tendo oportunidade, ou porque você é muito jovem – e lá se vão16 anos que ele passou desta para melhor – ou porque você não é dado a leitura.

Antônio Maria era homem da noite, que gostava da noite, que trocou o dia pela noite e que dizia que “a noite é grande”, no sentido de quem a vive.

Ligou-se aos meios musicais e fez muitas letras de sucesso tremendo, com gente como Dolores Duran e Vinícius de Morais.

Fez poesias magníficas, uma delas a da peça “Brasileiro, Profissão Esperança”, declamada magistralmente por esse magistral Paulo Gracindo.

Foi cronista diário do extinto “O Jornal”, do Rio de Janeiro, no qual escrevia uma coluna com o mesmo título do livro – O Jornal de Antônio Maria.

Há uma coisa que me impressiona no estilo de Antônio Maria: a simplicidade.

Suas cronicas eram estremamente faceis de se ler por causa da sua simplicidade humilde, de uma humildade pura, santa, sem nunca conceder ao ingênuo, aos piegas, dentro de um tratamento singular, pela originalidade, estético, pela beleza, e elevado, pelo pensamento.

Se você é ligado a Antônio Maria, você faz parte dos felizes tomadores de água cristalina dessa inteligência e desse estilo, responsáveis por páginas ricas de imagens lindas.

Se não é, procure conhecê-lo, para poder entrar nessa doce confraria.

Dou-lhes, ao terminar, depois de tudo o que já informei, a qualificação desse homem, conforme ele próprio escreveu: “Antônio Maria, brasileiro, cansado, profissão esperança”.

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É HORA DE REAGIR (EDIÇÃO 57)

Pois é, a TV Itacolomi saiu do ar (deveria ter permanecido, porque era uma emissora de importante trabalho em Minas) e nós ficamos, pelo menos por enquanto, so com o sinal da Globo.
Mas isso não demora muito, porque os homens estão anunciando que vem a Bandeirantes e as Alterosa e até, mais tarde – quem sabe? – a ex-Itacolomi, com novo nome e novos donos.
Mas o “papo” de hoje é e não é sobre televisão.
Na realidade, é um assunto televisivo-futebolístico.
Negócio seguinte: nunca jamais, em tempo algum, o futebol mineiro andou em tão baixo astral.
Responsabilidade e culpa dos “cartolas”, que não estão sabendo conduzir o Atlético e o Cruzeiro, dois clubes da maior tradicão e expressão no futebol brasileiro, e entregaram suas excursões sem roteiro e adversários definidos, a empresários que parecem não ter maiores compromissos e responsabilidades.
O Cruzeiro está por aí, pela América do Sul, há vários dias, enfrentando adversários sem prestígio e já teria até se envolvido com problemas de pagamento de hotel.
O Atlético, por sua vez, foi para as “oropas” há mais de 20 dias e parece que faz hoje a sua quarta partida, numa cidade chamada Tisiomara ou coisa parecida e enfrentou times chamados Sucho (pela fonoteca) e Craioba, que os anti-atleticanos chamam de Taioba, que seria um time formado por trabalhadores de um taiobal.
Mereceriam, é claro, sorte melhor.
Mas isso não explica e muito menos justifica os vexames a que Atlético e Cruzeiro estão submetidos.
E indispensável que a imprensa e a torcida denunciem esses “cartolas” de má gestão, que estão a comprometer o bom nome de dois dos maiores clubes brasileiros.
Para que os leitores sintam a diferença, o Flamengo viaja para a Europa seu roteiro e adversários são conhecidos até o dia 13 de agosto, além de saber o tipo de condução – ônibus e avião – e os hoteis em que se vai hospedar.
Como há males que vem para bem, o fato de os campos de Belo Horizonte estarem desocupados nesse periodo, permitiu que víssemos pela TV quase todos os jogos do Flamengo na Taça Guanabara.

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CONDENAÇÃO DE AMOR (EDIÇÃO 56)

Você é filho, e tem remorsos filiais.
Você, as vezes, foi ruím ou pouco amoroso com sua mãe, e se foi sempre amoroso pode achar que poderia tê-lo sido ainda mais.
Você foi desobediente.
“Matou” aula para caçar passarinhos ou para ir ao matinê ou para jogar sinuquinha ou para uma paquerada numa menina cheia de quindíns.
Sua mãe, no entanto, em casa, pensava que você estava na escola, aplicando-se nos estudos.
Você foi malcriado.
Ela, muitas vezes, tentou lhe dar conselhos.
E você fez ouvidos moucos ou os conselhos entravam em um e saiam pelo outro, e você já julgava fora o tempo, “quadrada”, “demodê”.
E disse, com acinte:
- “Colé”, “coroa”?
Sua mãe, no entanto pensava que dos muitos conselhos algum resíduo útil lhe ficaria.
Você andou vagabundeando.
Por certo, andou por descaminhos, fumou escondido, lidou com mulheres da vida, tomou canas por aí, chegou as tantas da madrugada a casa.
E ela, no entanto, pensava que você estava com bons amigos e que se atrasava por descuido próprio da idade.
Julgando sempre que você era gente boa, mesmo convencida de que você estava sempre no caminho certo, essas horas e esses dias foram sempre de vigília e preocupação e, até – quem sabe? -, teriam minado sua saúde e encurtado seu tempo de vida.
Não guarde remorsos.
Cuide apenas de lembrar-la com carinho, dando a ela, nessa lembrança, ao infinito, tudo aquilo que voc não soube lhe dar.
Porque ela sendo mãe, sendo você um santo ou um canalha, não teve para você outro sentimento senão seu inexcedível amor, que é a unica coisa que não falta e só sobra em todas as mães do mundo.

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A MUDANÇA (EDIÇÃO 55)

O coronel era homem dado a caridade.
Costumava dizer:
- Quem dá aos pobres empresta a Deus. De minha parte, não tenho menor constrangimento, Dou esmolas em qualquer lugar e em qualquer situação. É jeito meu, fui educado assim, e isso vai comigo até a sepultura.
No entanto, depois desse pronunciamento, pau-pau, pedra-pedra, o coronel, um homem de palavra, foi surpreendido por testemunha do seu pronunciamento negando esmola a um mendigo.
Interpelado, o coronel explicou:
- A gente, às vezes, tem de voltar atrás das nossas convicções. Você sabe que eu sou um homem que tenho uma porção de medalhas, comendas e condecorações. Pois um dia, eu estava com minha farda de gala e com o peito coberto de medalhas.
O coronel, nesse ponto, fez uma pausa como quem se lembra de algo aborrecido e continuou:
- Muitas pessoas estavam a minha volta. Foi quando acercou-se do grupo uma velhinha pedindo esmolas. Eu estava distraído e não me apressei em atendê-la. Ela foi pedindo a um e outro, sempre com recusas.
- E daí? – perguntou o amigo.
- Daí que um dos presentes deu-lhe uma esmola, e já, então, eu meti a mão no bolso para também fazer a minha caridade. Mas a velhinha, sem mais aquela, cutucou-me a costela, fazendo que eu me abalasse de minha postura e fizesse com que minhas medalhas retinissem. Aquilo, apesar de ser uma imprudência e um desrespeito, não chegou a abalar meu ânimo. Duro foi o que aconteceu depois.
- Que foi?
- A miserável virou-se para mim e desrespeitosamente, perguntou: “E você, “seu” guarda?”
- Guarda?
- Guarda – confirmou em desalento. Como se eu fosse um guarda de trânsito, eu que passei anos numa academia, estudando, queimando as pestanas, dia e noite, e, depois, arrisquei minha vida enfrentando bandidos e nos campos de batalha. Você acha justo que um homem da minha estatura pode ser tratado com tamanha desfaçatez?
- Não acho.
O coronel fez um muchocho, tirou uma baforada do seu cigarro turco e fechou o “papo”:
- Pois é, nunca mais dou esmolas.
- E não deu, mesmo.

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O VISITANTE (EDIÇÃO 54)

O pastor entrou no templo e fez uma reverência com a cabeça.
Passou os olhos pelos fies, que eram muitos, e caminhou direto para o mais elevado degrau de uma pequena escada.
- Queridos irmãos, é sempre uma alegria contemplar a igreja cheia de gente que procura Deus.
Fez uma pequena pausa.
No meio da pausa, notou que havia um estranho na primeira fila.
- Quem é? - Indagou de seu ajudante.
- É um irmão que nos visita.
- De onde?
- De Contendas do Orobo.
- Bahia, não é?
- Com um nome desses, só podia ser da Bahia.
E voltando-se para os fies:
- Hoje nós vamos falar sobre alguns provérbios de Salomão.
Tomou a Bíblia e abriu-a.
Fez um pigarro discreto e começou:
- Salomão, provérbios, capítulo seis.
Esperou um pouco, e ouvia-se o farfalhar das folhas que os fiéis passavam a procurar do trecho mencionado.
Prosseguiu o pastor:
- Filho meu, se ficaste por fiador de teu companheiro, e se te empenhaste ao estranho, estás preso. Estas palavras de Salomão são da adivertência contra o servir de fiador. Espero que os irmãos levem estas santas palavras na devida conta.
Fechou a Bíblia, fez nova pausa e voltou a falar:
- Agora, quero pedir a um dos fiéis que faça uma oração. Escolhemos os nossos visitantes de... de... de... da Bahia.
E olhou no rumo do visitante.
Este, um homen imenso, pendurado num bigode, avançou o tronco e batendo o polegar no peito, perguntou;
- Eu? A minha pessoa?
O pastor fez que sim com a cabeça e reforçou:
- Sim, senhor.
O baiano de Contendas do Orobo tombou o corpo para trás e espiando de banda, exclamou:
- Cê besta!

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OVO E GALINHA: NEM ANTES, NEM DEPOIS (EDIÇÃO 53)

Na Tailândia – contam os jornais -, um certo Damrong Sumpradit foi condenado a sete anos e meio de prisão por ter matado seu amigo Ood, durante uma discussão sobre o que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha.
Durante a desavença, Damrong, que defendia a galinha como a primeira, armou-se com um martelo, enquanto Ood defensor do ovo, armou-se com uma faca.
Ao final, Ood estava morto.
Não pretendo, é claro, em meia dúzia de palavras, delindar esse milenar enigma da humanidade.
O que não cabe dúvida é de que o ovo e a galinha estão presentes na Historia Universal e até nas estórias infantis.
Há o caso, por exemplo, do jovem que furtou a galinha dos ovos de ouro, que é tão apreciado pelas crianças.
E é certo que quando Colombo colocou o ovo em pé, um e outro estavam presentes no episódio, porque o ovo vem da galinha ou a galinha vem do ovo.
Certa vez, consegui estabelecer a versão correta desse lance, desmentindo que Colombo tivesse quebrado a casca de um ovo para provar que seria capaz de uma façanha considerada impossível para sábios espanhóis.
Colombo, na realidade, fez o que a galinha faz para botar um ovo, só que o navegador genovês praticou o ato de pé (a galinha bota ovos deitada) e não fez corococó.
De outra feita, defendi a galinha sustentando a tese de que o ovo deveria ser cilíndrico, para que a penosa sofresse menos nos seus partos constantes.
Assim devem agir s cidadãos de boa vontade, buscando soluções práticas para problemas que, aparentemente, escaparam a natureza, de ordinário, tão sábia e inteligente.
O debate sobre a precedência ovo ou galinha é irrelevante.
Se Damrong e Ood cuidassem de pô-los juntos, não teriam sido personagens de uma cena bárbara, que mandou um para o cemitério e outro para a cadeia.
Porque o melhor são os dois ao mesmo tempo, isto é, uma suculenta omoleta recheiada com pedacinhos de peito de galinha.
E o dilema continua.

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SÓ UMA CERTEZA (EDIÇÃO 52)

A gente consegue dormir, ainda que os rios, os ares e os alimentos estejam envenenados e se fale em guerra total (sim, o fim do mundo).
Ora, direis, talvez isso não seja tão grave assim, a poluição seria conversa fiada de idealistas sonhadores e a guerra total seria apenas hipótese.
Sim, mas a gente dorme com situações reais, objetivas e próximas: Delfim e sua inflação, salários baixos, Delfim e o desemprego.
Querem mais Delfim?
Não, você não quer, mas Delfim acha que está certo e – pior. – o presidente Figueiredo também acha, e tome Delfim.
É tudo muito grave, convenhamos.
Sem contar o ladrão que está nas ruas, o polícia que espanca o cidadão, as motocas barulhentas, os padres de passeata, os ciúmes e inconstâncias femininas, o machismo dos homens, as histerias dos colunas-do-meio – são coisas muitas, e verdade, mas caganifantes.
Peguem o jornal, este ou aquele, qualquer um.
Veja que na Bolívia, o general Meza “virou a mesa” os cubanos continuam dando-se ao esporte de apresar aviões, há greve na Polônia (quem diria?), a OPEP está por se reunir (adivinhem o que vai dar), o Billy Carter, esse “clown”, está na onda e as bombas estão explodindo por conta do terror político, aquí, na Itália, na Espanha.
Eu sei, vovô, que você está dizendo:
- Bons tempos aqueles...
Mas não adianta ter saudades porque o mundo presente é este que corre e que balança e é para o futuro que caminhamos todos.
Nem se exalte e vanglorie o rico por possuir bens materiais, porque isso é egoístico, já que sucedem-lhe filhos e netos que talvez não os possuam e há muitos irmãos que não tem sequer o que comer.
Mas não quero jorrar pessimismo em cima desta terça-feria.
Só quero ter a certeza e dá-la a todos de que alguém, muitos, praticam belos gestos cheios de grandeza e que a humanidade há um dia de voltar ao Criador, que há de perdoar a todos e recebê-los como filhos.

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ATÉ QUANDO (EDIÇÃO 51)

Aí está a questão dos remédios.
O brasileiro e um receitador de remédios para sí mesmo e para terceiros e todos os brasileiros são consumidores.
E o Brasil e o paraíso dos remédios, onde os hipocondríacos tupiniquíns podem deitar e rolar a vontade: são dezenas e milhares de drogas, com faixas vermelhas e sem faixas, proibídos e liberados, todos compráveis.
No entanto, há uma corrente que defende que os remédios podem fazer bem e podem fazer mal.
Há remédios espetaculares para o fígado, que arrasam com os intestinos.
Outros são ótimos para para os pulmões, mas perigosos para o coração.
Outros ainda são excelentes para o cérebro, mas podem provocar insônia, vício, dependência, etc.
Então, ha remédios de primeiríssima para eliminar infecções, mas que podem “bombardear” para sempre o estômago, o fígado, os intestinos, etc.
Há outra corrente, a dos macrobióticos, que defende que a alimentação sadía e racional é que é o caminho do homem, que simplesmente proíbe o uso de qualquer remédio.
Na opinião dos macrobióticos, a doença não é possível num organismo que é alimentado corretamente e que todas as doenças, inclusive as chamadas incuráveis, são curáveis através da alimentação.
O homem teria os vegetais, principalmente os cereais, como seus alimentos mais generosos.
A carne, o queijo, o leite, tudo que vem do animal, as conservas, os açucares, os enlatados, a bebida alcoólica, tudo isso seria venenoso mas o homem continua se alimentando justamente com isso.
O arroz e o trigo, que são altamente alimentícios, estão degenerados pela industrialização, que os “beneficiam” tirando-lhes os benefícios e acrescentando-lhes produtos químicos, em suma, retiram do arroz e do trigo as vitaminas e os minerais, tornando-os quase inócuos e depois ainda os envenenam.
A verdade é esta: o brasileiro paga, todo mês, o armazém ou o supermercado, a luz, a água, o telefone, o aluguel, o gás ou a lenha...e a farmácia.
Enquanto continuar assim vai continuar tomando remédios e enriquecendo as multinacionais, que só querem ganhar dinheiro, muito dinheiro, sem se importarem com a saúde do povo.
Até que o Governo assuma a sua responsabilidade e toma uma medida contra esses piratas exploradores e saqueadores, em defesa do bolso e da saúde do povo.
Mas até quando? Ninguém sabe.

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SODOMA, O MÍOPE(EDIÇÃO 50)

Bandeira sentenciou:
- Professor, use óculos o dia inteiro e, a noite, até para dormir.
Esse “professor” não é um título meu, mas um cacoete do médico.
- Pra dormir também?
- É para os sonhos ficarem mais nítidos.
Na escolha da “cangalha”, eu queria óculos que me dessem um ar de intelectualidade, talvez num impulso de compensação.
Lentes coloridas, não.
Elas fazem o mundo sombrio e falecem ou mudam as cores do panorama.
Quero sol, muito sol, de claridade tropical e imagens nítidas, sem distorções e esmaecimentos.
Mas, passados alguns anos, não me adapto, mesmo.
Uso-os para ler, e leio muito.
Escolhi lentes e armação iguais as do Carlos Lacerda, um homem capaz de falar sobre política, rosas, livros, futebol flamengo, história, sociologia, tudo, enfim, e que faz jornalismo, teatro, conferências e administra várias empresas.
Os óculos, sempre achei, tornam as pessoas inteligentes, são capazes de transformar um asno em César Lates.
Até que surgiu-me um baixinho de óculos tão necessários um aos outros, como nos ocorre um troiano após um grego e Gomorra sucede Sodoma.
Eles eram como unha e carne, Zico-Doval.
Pois, dizia, surgiu-me o Sr. Sodoma com sua Gomorra na cara.
E ele disse-me possuir experiência de 30 anos sem tirar os óculos de sob o nariz e se iniciaria com a impressão de que se transformaria num intelectual de nomeada.
- Mas, Sodoma, você me parece um homem inteligente.
- São os óculos. Conto até 10 usando os dedos, acho o Valdique Soriano o máximo e rio-me de uma anedota dois dias depois.
E com uma ponta de desgosto:
- Lacerda é uma inteligência, sim, mas Ibrahim Sued também usa óculos. Quer saber? Quem usa óculos não é inteligente, não, mas quem enxerga menos.

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GRANDES INDAGAÇÕES(EDIÇÃO 49)

Há momentos em que não há como se fugir de certas indagações.
E elas começam com perguntas simples, que, na realidade, apenas abrem a questão.
- Papai, de que cor é a nuvem?
- As nuvens são brancas, cinzentas ou escuras.
- Não há nuvem azul?
- Não. Azul e o céu.
- Céu é o lugar para aonde a gente vai?
- É, todo menino bonzinho vai pro céu.
- E como que gente vai pro céu?
(Aqui o negócio começa a se complicar).
- Vai voando.
- Depois que morre?
- É
- A gente sai e pelos buraquinhos do caixão?
- Bem... pode ser...
Como o “papo” está ficando inviável, a mãe entra na conversa:
- Deus fez a gente, meu filho, com o corpo e a alma. A alma é que vai para o céu. Quando a gente morre, um anjo vem buscá-la.
Há um momento de expectativa.
É quando, quebrando o silêncio, o menino mais velho discorda:
- Não é assim, não.
- Então como é?
- Alma sobe para o céu é pelo arco-íris.
- E quando não tem arco-íris?
- Aí só morre gente de noite.
- De noite não há arco-íris...
- É. E a gente não sabe como é que sobe, porque está tudo escuro.

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DUAS VEZES NAS ALTURAS(EDIÇÃO 48)

Foi num sábado qualquer (acho) que vi Lúcio Tedesco, pela primeira vez, nas alturas. O episódio deu-se na Ilha dos Araújos, em Governador Valadares. Eu assumira a condição de padrinho de Lúcio. Levei-o a passear. Nesse dia, éramos um grupo de jovens peladeiros em ação, no campinho situado nos fundos da igreja católica, em construção. Deixei o menino sentado num gramado, quietinho, debaixo de um andaime. Bola rola pra lá, bola rola pra cá. Lúcio, a essa altura, estava esquecido. A bola, sim, era o centro de todas as atenções.
Foi quando alguém gritou:
- Puts! Olhem onde está aquele menino!
Olhei e fiquei gelado. Lúcio, aquele pequerrucho roliço, havia cometido a proeza de subir pela armação metálica e estava a 15 ou 20 metros de altura. Se ele despencasse dali... tchau e bênção! - nem pensar!
Fiquei em baixo, atento para qualquer eventualidade, e fui orientando:
- Desça, Lúcio, assim... devagar... com cuidado... devagar... assim...
E ele, com a carinha mais besta desde mundo, foi descendo... descendo... até chegar onde eu estava. Foi aí que me senti aliviado, e dei-lhe um peteleco na cabeça, que deve estar ressoando, até hoje, na sua cachola.
Venho, agora, aos Estados Unidos da América do Norte, para rever amigos e para conhecer de perto as maravilhas da maior e mais avançada civilização do planeta Terra. Aqui encontro Lúcio, sua mulher Margarida, sua filha Daisy, e seus irmãos Paulinho e Juliana Vejo Lúcio Tedesco, pela segunda vez, nas alturas. Ele assumiu, há 20 anos, a condição de brasuca. Uma atitude de coragem. Há quatro anos perdeu o pai, o jornalista Marcondes Tedesco, de quem herdou a inteligência e o caráter primoroso. Mantém entre suas distantes saudades o Brasil, sua mãe Suzete e sua irmã Fernanda. Dotado de muita força de vontade e de muita capacidade de trabalho, decidiu-se a vencer na vida. Trabalhou duro, de dia, de noite, muitas vezes sofrendo a intempérie da neve e do frio. Encontro-o, pela segunda vez, nas alturas: no alto da DT Brazil, que trabalha em remessas de dinheiro; no alto da DT Enterprises, que trabalha em pintura, limpeza e manutenção; no alto da Signs2go4, “business” que trabalha em plotagem e propaganda; e no alto do Tá na Mão, o maior jornal de classificados da Nova Inglaterra. Lúcio Tedesco é um vencedor. E se um dia decidir-se a descer até nós, há de merecer de seus muitos amigos uma recepção carinhosa, e não o merecido peteleco que lhe dei na cachola há 35 anos.

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CONSSEÇÃO(EDIÇÃO 47)

Esta é uma definição perfeita: suéter é uma peça de roupa que a criança veste... quando a mãe sente frio!
Basta que a temperatura caia uns pontecos, para que a mãe, zelosa, ressuscite velhas roupas do fundo do baú, cheirando a naftalina.
Vai para a porta da rua e berra:
- Adooooooolfo.
Menino é igual felicidade: nunca está onde poderíamos encontrá-lo.
Após uma sucessão de berros, em meio, já a uma aflição pressurosa, uma vozinha contesta:
- Já voooooou!
Este “já vooooou!” parece vir das profundas do deserto da Líbia, porque o menino só aparece, segundo pressão da mãe, “um século depois”.
Mas, à noite, o “pródigo” está em casa, e a mãe, agora, com a assistência do pai que faz pose de severidade, começa a falar:
- Adolfo, meu bem, você está gripado.
- A senhora já me deu remédio.
- Mas continua. E está fazendo muito frio. Você não deve sair sem agasalho.
O pai tira os olhos do jornal e balança a cabeça concordando.
O menino diz:
- A senhora está tentando tirar meu direito constitucional de ir e vir.
O pai tem um sobressalto.
- Onde, diabo, este menino arranjou isso?!
A pergunta fica sem resposta, porque a mãe não sabe e o menino, embirrado, se fecha como uma esfinge.
A mãe continua no seu patati-patatá, até que o Adolfo recomeça:
- A senhora vai pro inferno quando morrer.
Os óculos do pai saltam para o chão.
A mãe assume um ar indignado:
- Que é isso, Adolfinho? Você acha sua mãe tão ruím assim?
O menino sente remorsos, o coração de pintinho apertado, e acrescenta hesitante:
- A senhora vai para o inferno, sim...
E fazendo uma pequena pausa, emenda:
- ... mas vai ser a melhor do inferno.

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DOUTORES ENGRAVATADOS (EDIÇÃO 46)

Ibraim Sued, “de leve” notícia que algumas universidades estão cogitando que seus alunos usem gravatas.

O beduin é de fé: falou, tá falado.

E eu que, na minha santa ingenuidade, sempre achei que estudante fosse para estudar, para aprender, para se preparar no sentido de ser útil a nação!

Antigamente, na fase pré-revolucionária, servia para tudo: comício, passeata de protesto (chegaram a protestar contra o protesto), greve, agitação e subversão.

Agora, o Governo está empenhado em que a juventude estude e se eleve intelectualmente.

E, ao mesmo tempo, algumas escolas querem tranformá-lo em “dandy”, em manequim, em boneco engravatado, em almofadinha.

Se o estudante vai a faculdade com a toalete incompleta, está no index do reitor.

Exige-se: o estudante tem de ter livros, cadernos e canetas; Tem que estudar Química, Física, Matemática, Línguas etc... e, sobretudo, antes e principalmente, tem de andar irrepreensivelmente trajado.

Não se exige que ele seja um sabe-tudo, um “cobra”, nem que tenha aplica çã o.

Importa sim, que seu terno tenha um talhe perfeito, que sua camisa leve a etiqueta Cardin e seus sapatos estejam polidos.

- Ah! – exclama o mestre. – Você acertou todas as questões, mas leva zero. Está sem gravata!

O estudante apela para Reitoria.

O Reitor chama o professor:

- Com o efeito, a prova está irrepreensível!

- Mas o aluno estava sem gravata!

- O que! Sem gravata! Entreguem esse calhorda e analfabeto a polícia! Masmorra nele!

A gravata, esse penduricalho cruel, ganha foros de valor intelectual.

- Quem descobriu o Brasil?

- Não sei se foi Tiradentes ou João Havelange...

- Nota 8. Sua resposta não está muito incisiva, nem muito correta, mas achei linda sua gravata.

- Italiana, professor, como no inglês.

- Bravo! Dou-lhe mais um ponto! E teremos, para grande orgulho, uma chuva de doutores incompetentes... mas engravatados!

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MANDAMENTO ESQUECIDO (EDIÇÃO 45)

Não sou rezador, mas sou homem de fé.

E sempre que estive em qualquer tipo de perigo (de vida, conto ou tétano e um acidente grave, passando por 11 cirurgias menores e maiores), cada vez minha fé mais aumenta e mais me aproxima de Deus.

Durante toda a minha vida busquei uma prova da existência de Deus.

Só a encontrei mesmo num livro chamado “Para Quem Deseja Ter Fé”, de João Mohama, que se prende a apreciações sobre a disciplina da natureza ( laranjeira dá laranjas, roseira dá rosas etc.; Otogamis Braga Moreira costuma dizer que ninguém colhe mangas no pé de laranja), o que existe foi planejado, partiu de uma idéia, e essa idéia e Deus.

A existência de Deus independe de prova parida da razão humana, porque Deus é para ser sentido, e quem não o sente é infeliz justamente por não poder sentí-lo.

Há um mandamento que diz que o homem não deve chamar o nome de Deus em vão e o não cumprimento dessa máxima é que me levou a escrever alguma coisa.

Não é de hoje, nem de ontem, mas desde a Criação que o homem vive a chamar Deus por nada, à toa, e Seu nome só deverá ser chamado nos momentos de verdadeira angústia, infelicidade e desespero.

O que mais a gente ouve são estas expressões: “Deus lhe pague”, “se Deus quiser”, “graças a Deus”, “ai, meu Deus”, “Deus te proteja”, “valha-me Deus!” – todas- cheias de piedade, gratidão e bons augúrios, mas pronunciadas por um prêmio de loteria, uma pergunta sobre a saúde ou por coisa alguma.

Se a dona-de-casa, na cozinha, queima a ponta do dedo, grita “ai meu Deus!”e a qualquer arte de uma criança ela pede pelo amor de Deus.

Deus é uma entidade superior, onisciente, onipresente, onipotente, que rege por sua vontade todas as coisas do universo e não pode (embora tudo possa) ficar por conta de apelos caganifantes e desimportantes.

Não vou chegar ao exagero de dizer que por isso o mundo está cheio de violências, guerras, combates, sequestros, homicídios, assaltos, e caterva.

Mas, não cabe dúvida, o homem precisa valorizar o santo nome de Deus para ser sempre atendido, cumprindo o mandamento e não chamá-lo em vão.

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OS NOMES (EDIÇÃO 44)

O nome estranho mais famoso do Brasil é, sem dúvida, o do Sr. Um Dois Três de Oliveira Quatro.

Há outros notáveis: José Iofoscai da Silva e José Tropicão de Almeida.

Parajara – o nome desta fraca figura aqui – tive notícia de outros, em Muriaé, Tumiritinga, São Paulo e Fortaleza, mas não fiquei conhecendo nenhum deles.

Os nomes de bichos negrejam os registros: Coelho, Bezerra, Leitão, Leão, Lobo, Carneiro, etc.

E de árvores: Carvalho, Pereira, Jacarandá, Sucupira (alô, Dílson, como vai? E o Valdeci?) etc.

E de coisas e de frutas: Pires, Pitanga, Manga.

A lista é vasta, curiosa, interessante.

Há um caso especial, que já citei, do Joalazoroquim, um nome misto de Joaquim e Lázaro, que se tornou possível partindo o primeiro e encaixando o segundo.

Dizem que o nome marca as pessoas, e isto é verdade: Cafuringa, não pode jamais ser um jogador de futebol, assim como João,, Sebastião, Inácio, Aristófanes, Raimundo, Clímaco, etc.

E para facilitar este trabalho, lancei mão do catálago telefônico e achei alguns nomes bastante curiosos: Cerizê, Acacibas, Altimir, Aristóbio, Arsonval, Ausônio, Paulo Có, Deiaci, Decarli, Dolma, Ebas, Elça, Erziléa, Fracilo, Folate, Gironda, Lesbão, Mandir, Hilo, Niltro, Orgalita, Termina, Teompompo (seria a pompa de Deus?) Reomidio, Redevim, Gebas, Garozil, Izilma, Jerbe, Permínio.

Jornais e revistas já abriram páginas e mais páginas para falar de nomes curiosos.

O programa Sílvio Santos chegou a fazer um concurso nacional e deu o prêmio a Cafiaspirina Ginésia Sabugosa.

Para fechar, a estória do cidadão que foi ao juiz e pediu para trocar de nome.

Se o senhor me apresentar um bom motivo, posso atendê-lo propôs o magistrado.

- Como é o seu nome?

- Joaquim Pãodurélio.

O juiz matutou e concordou:

- De fato, seu nome é esqusito. Como é que o senhor quer chamar-se?

O outro espiou com cara contente para o magistrado e informou:

- José Pãodurélio.

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O recorde (EDIÇÃO 43)

Era tempo do ginásio e das traquinagens na sala de aula.

Destacava-se sobremaneira, dentre os moleques, o Lico, quatro letras inexpressivas para dizer o grande mundo de seu interior.

Nunca soube seu nome.

O detalhe principal de sua figura era seu sorriso, que vivia sorrindo a sua alegria permanente.

Seu cabelo era a prova d’agua, e logo fizeram chacota com ele.

Num grupo de dez ou doze “matávamos” aula num côrrego pequeno, que descia do morro e corria em sinuosa pela planície para assumir no Rio Doce.

Tirávamos “chopes” do barranco.

E Lico era o ultimo a voltar.

Fôlego de gato.

Um dia, saiu d’água no meio do colonião que pendia sobre as águas e ali ficou escondido, enquanto todos, apreensivos, saltávamos na água a sua procura.

E ele surgiu para ouvir as nossas reprimendas com o sorriso de sempre.

Fez humor:

- Eu não podia morrer...

- Não podia por que?

- Porque amanhã tem prova de matemática...

O tempo foi passando e Lico causava inveja, porque mergulhava dois minutos e meio, as vezes, três, enquanto a turma de minuto e pouco dava “duro” para acompanhar o seu tempo.

Nadava bem e mergulhava melhor ainda.

Não sei se acontece com todo mundo.

Mas os companheiros de infância vão sumindo da vida da gente, alguns para sempre e outros em encontros ocasionais, marcados por simples acenos de cabeça, sem o calor da amizade que parecia não ter fim.

O Lico sumiu. Soube, tempos depois, que ele superava os três minutos.

Foi num conversa qualquer, com alguém que não me lembro.

Ele, na verdade, buscava ir batendo seus próprios recordes, numa superação natural e humana.

Um dia, ao ler o jornal, soube o seu nome todo, o que não vem ao acaso.

Batera seu recorde com sobra.

Os bombeiros tiraram seu corpo do rio.

A noticia não falava do sorriso...

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A mudança (EDIÇÃO 42)

O coronel era homem dado a caridade.

Costumava dizer:

- Quem dá aos pobres empresta a Deus. De minha parte, não tenho o menor constrangimento. Dou esmolas em qualquer lugar e em qualquer situação. É jeito meu, fui educado assim, e isso vai comigo até a sepultura.

No entanto, depois desse pronunciamento, pau-pau, pedra-pedra, o coronel, um homem de palavra, foi surpreendido por testemunha do seu pronunciamento negando esmola a um mendigo.

Interpelado, o coronel explicou:

- A gente , as vezes, tem de voltar atrás nas nossas convicções. Você sabe que eu sou um homem que tenho uma porção de medalhas, comendas e condecorações. Pois um dia, eu estava com minha farda de gala e com o peito coberto de medalhas.

O coronel, nesse ponto, fez uma pausa como quem se lembra de algo aborrecido e continuou:

- Muitas pessoas estavam a minha volta. Foi quando acercou-se do grupo uma velhinha pedindo esmolas. Eu estava distraído e não me apressei em atendê-la,. Ela foi pedindo a um e outro, sempre com recusas.

- E daí? – perguntou o amigo.

- Daí que um dos presentes deu-lhe uma esmola, e já então, eu meti a mão no bolso para também fazer a minha caridade. Mas a velhinha, sem mais aquela, cutucou-me a costela, fazendo que eu me abalasse de minha postura e fizesse com que minhas medalhinhas retinissem. Aquilo, apesar de ser uma imprudência e um desrespeito, não chegou a abalar meu ânimo. Duro foi o que aconteceu depois.

- Que foi?

- A miserável virou-se para mim e desrespeitosamente, perguntou: “E você, “Seu” guarda?”

- Guarda?

- Guarda – confirmou em desalento. Como se eu fosse um guarda de trânsito, eu que passei anos numa academia, estudando, queimando as pestanas, dia e noite, e, depois, arrisquei minha vida enfrentando bandidos e nos campos de batalha. Você acha justo que um homem da minha estatura pode ser tratado com tamanha desfaçatez?

- Não acho.

O coronel fez um muchocho, tirou uma baforada do seu cigarro turco e fechou o “papo”:

- Pois é, nunca mais dou esmolas.

E não deu, mesmo.

 

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O pintor(EDIÇÃO 41)

Nada mais que de repente, Tio Pequetito resolveu intrometer-se nos caminhos da arte.
- Vou pintar!
Todo mundo ficou alvoroçado.
- O velho esta caducando!
Uma coisa não lhe poderia ser negada: Tio Pequetito possuía extraordinária habilidade para fazer de tudo.
Dizem que já foi boiadeiro, carpinteiro, mecânico, torneiro, parteiro, extrator de dentes, poeta, alfaiate, rabula
-o diabo!
- O que cada um fizer, eu faço.
E fazia, mesmo.
Só que seu “papo” era maior que seus feitos.
Mas aquela era demais.
E Tio Pequetito passou a mão em meia dúzia de ripas e pregos e preparou o cavalete.
Depois, ele próprio esticou a tela, misturou as aquarelas, fez os pincéis.
Esqueci-me de dizer que o lugar é Caratinga.
E Tio Pequetito resolveu pintar a Itaúna, uma pedra bonita, marco do lugar, a Ibituruna de lá.
Numa bela manhã, lá estava ele pintando, pintando, pintando.
Depois de mais de 40 horas de trabalho, deu dois passos a ré, contemplou a pintura e exclamou:
- Que beleza! Se Miguel Angelo tivesse pintado paisagens, lamberia meus pés!
Deu um berro:
- Mulher!
E Tio Pequetito, apontando o quadro, perguntou:
-Que tal?
Ela espiou, espiou, e respondeu:
- Não sei o que é isso.
- Burra! Sempre fostes burra! Um primor destes, e tu não sabes o que é! Não reconheces a beleza! Tapada!
Foi justo nesse momento que chegou Tião, o leiteiro, um crioulo comprido, canelas secas, com as calcas arregaçadas.
- Tião, meu filho, olha esta pintura. Me diz o que é.
O crioulo bateu os olhos na tela, torceu o pescoço para um lado e para o outro, e falou:
- Olha seu Pequetito...
Fez uma cara intrigada e emendou:
- Se não é uma brabuleta, é uma vaca deitada...

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Chegada ao fundo(EDIÇÃO 40)

Para quem conhece, ainda que superficialmente, a vida de Assis Chateaubriand, o fundador dos Diários Associados, o grupo está acontecendo agora com esse grupo torna-se profundamente triste.
Chatô, apelido tupiniquim do grande jornalista, nasceu na Paraíba, passou pelo Recife e veio descendo por estes brasis até o Rio de Janeiro e desse ponto empolgou todo o Brasil e acabou se tornando cidadão do mundo.
Fisicamente, era baixo, atarracado; tinha qualidades indiscutíveis de liderança e chefia; de energia invulgar, viajava muito, era mulherengo, um tipo galante, capaz de distribuir caros presentes, mas passou os últimos anos, paralítico total das pernas e parcial dos braços, embora jamais deixasse de escrever seus artigos.
Não obstante ter sido um “globetroter”, Chatô era um telúrico, agarrado a terra, sempre a terra brasileira.
Com o passar do tempo, espalhou jornais, revistas, rádios e televisões pelo Brasil inteiro – na realidade, foi o grande conquistador do interior brasileiro com os meios de comunicação -, construindo um verdadeiro império.
Mas Chatô chegou ao fim, morreu, cumpriu o destino de todos os homens, maiores ou menores, ricos ou pobres.
E os Diários Associados aí ficaram, entregues a um condomínio que poderia ser bom se tivesse homens de qualidade a comandá-lo.
Parece que desde que Chatô se foi os Associados foram murchando, como uma flor mal cuidada ou não cuidada, restando-lhe alguns jornais e emissoras de rádio ou TV, que sobrexistem em razão de administrações ocasionalmente melhores ou pela força de mercados.
Nos tempos de Chatô, os Associados eram, sem dúvida, a grande forca que fazia frente ao grupo O Globo, dos poderosos irmãos Marinho.
Com o andar dos anos, O Globo foi crescendo e se expandindo, sempre de maneira muito firme e muito profissional, enquanto os Associados iam se esfacelando.
Dá-se agora a derrocada, quando o Governo resolve tomar dos Associados várias concessões.
Aparentemente, o episódio indica que os Associados tem uma direção que vive de saques, que tira mais, sempre tira e não pára de tirar.
E isso explica tudo: por mais opulento e mais pródigo que seja, chega o dia em que todo se acaba, só porque esses rapinantes entenderam que os Associados eram um saco sem fundos.

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O outro (EDIÇÃO 39)

Márcio Rubens Prado é desses cronistas que escrevem com tal leveza que as palavras parecem soltas do papel.

A rigor, não escreve: vai papeando, num estilo singular como impressão digital.

Dias destes ele contou uma estória bastante engraçada.

Sobre um cidadão que ao embarcar em Belo Horizonte para o Rio, deu uma gorjeta para o motorista e recomendou:

- Vou ficar em Juiz de Fora. Você, por favor, me chame, porque durmo muito e meu sono é pesado. Quando eu acordo, digo coisas sem nexo, brigo, xingo. Mas não se incomode. Toca-me para fora do ônibus. Sua missão é fazer-me desembarcar, mesmo que seja no tapa.

- Num tem problema.

No dia seguinte, cedo, o ônibus entrava na Rodoviária Novo Rio, e um passageiro dormia.

O motorista chamou-o.

Quando o cidadão acordou e deu uma espiada em volta, constatando que estava no Rio, descarobou para cima do chamado profissional do volante:

- Desnaturado! Fidasunha! Mandei que você me chamasse em Juiz de Fora! Paguei-lhe para isso! Bandido! Cretino!

Uma bronca digna de assembléia de marinheiro.

Nesse momento, outro passageiro descia do ônibus meio indiferente, quando um crioulo comentou:

- Puxa! Esse passageiro esta nervoso, hein?

O cara espiou para trás, acabou de descer e contou:

- Nervoso? Esse passageiro até que está delicado. Você precisava ver um que botaram pra fora do ônibus em Juiz de Fora.

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Enigma(EDIÇÃO 38)

A idade da mulher tem sido um dos enigmas mais intringados da humanidade.

Quando uma mulher lhe diz quantos anos tem, a única verdade de que você pode ter certeza e que esta mentindo

Lembro-me de um episódio do forum local, quando um juiz, ouvindo uma senhora da sociedade como testemunha, perguntou-lhe para efeito de qualificação, a sua idade.

-Não e por nada, não – contestou a coisinha fofa – mas considero essa pergunta impertinente e indelicada. O senhor não esta agindo como um cavalheiro...

O magistrado espiou para a estatueta que simboliza a justiça em busca de socorro, mas ela estava de olhos vendados.

- Minha senhora – retorquiu, o mais macio que pode – esta e uma pergunta normal e rotineira...

- Estou aqui, senhor juiz, para de por sobre as sem-vergonhices do marido de minha vizinha e amiga, D. Mariquinhas, e não vejo como a sua idade, a minha, a do prefeito, a do Kissinguer ou a do Matusalem pode ajudar nessa encrenca. A única idade que interessaria seria a do réu, que e pra ver se alguém seria capaz de explicar como e que um velho gaga e borococho como ele ainda tem animo de ficar mexendo com as impregadinhas de sua casa e da vizinhança. Quantos anos o senhor da para aquele velho biscateiro?

- Madame, pelo amor de Deus! Eu não quero saber a idade de ninguém!

- Se não quer saber, pra que perguntou?

- Para botar no papel.

- E como e que o senhor poria minha idade no papel sem conhece-la?

- Minha senhora – falou o juiz irritado-, eu poderia ser seu pai...

- Poderia, mas não e. Felizmente minha mãe teve o bom senso de não se casar com o senhor. Felizmente só, não. Muito felizmente. Porque, se não me engano, o senhor andou se assanhando para o lado dela...

- Minha senhora!

- Sua senhora, uma ticha! Não deponho mais! E se o senhor quiser saber minha idade, faca uma promessa pra São Longuinho ou vá perguntar a sua avo!

E se retirou levando seu segredo que só será conhecido quando fizerem seu epitáfio.

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JIMMY E BILLY (EDIÇÃO 37)

Carter levantara-se às seis da manhã, como de hábito.

Mas, daí em diante, seus hábitos estariam mudados: não conversaria com seu secretário particular para discutir a agenda do dia, nem, em seguida, com qualquer dos seus secretários de Estado.

Havia mandado chamar seu irmão, outro Carter, claro, só que Billy, para as oito horas.

Precisava conversar com ele, dizer e ouvir coisas, sobre seu comportamento pessoal, que tem sido tão estranho, complicado, surrealista, que anda comprometendo sua imagem (a do político Jimmy) e a sua posição de presidente dos Estados Unidos da América.

Jimmy Carter aproveitou para passar os olhos nos recortes dos principais jornais americanos.

E viu neles o seu irmão Billy em várias poses, dentro de várias roupas e em várias situações: ele aparecia dependurado de cabeça para baixo num trapézio; estava com um terno de lata de cervejas; e ao lado do coronel Kadhafi, da Líbia, que lhe teria dado muitos presentes.

- Esse Billy... – murmurou Jimmy.

E emendou:

- Seria engraçado, pândego e divertido, mas está me derrubando.

Foi nessa hora que anunciaram a chegada de Billy.

Ele entrou, gordo, corado, bonachão, com um sorriso meio idiota, murmurando um “hei, Jimmy” e deixando-se cair numa poltrona.

Mandei chamá-lo, Billy – começou Jimmy – por causa desses “baratinhos” que você anda aprontando por aí. O Senado já está investigando, os jornais só cuidam de você, Moscou está de olho...

Fez uma pausa e continuou:

Saiba você que, em nome dos Estados Unidos, eu tenho uma porção de “pepinos” para descascar. Você viu o que deu a tentativa de resgate no Irã... o boicote das Olimpíadas... a questão do petróleo... os direitos humanos... o terceiro mundo... Só tenho dado “mancadas”. Ora, isso desgasta, derruba.

Jimmy sentou-se numa cadeira, inclinou o tronco para frente e falou, meio dramático:

- Billy, meu irmão, estamos juntos desde que você nasceu. Somos matutos, do interior. Pagamos na enxada para plantar amendoim. Cheguei, graças a muita luta, à presidência dos Estados Unidos da América. Sabe lá o que é isso? Sou, Billy – preste atenção. – o homem mais importante e mais poderoso do mundo. Agora você me aparece fazendo uma porção de “papagaiadas”, metido numa porção de tramóias.

Carter levantou-se e, patético, exclamou e perguntou:

- Pelo amor de Deus, Billy. O que devo fazer?

Billy ergueu-se da poltrona, espiou firme para Jimmy e, batendo as pontas de todos os dedos das duas mãos sobre a camisa, desafiou:

- Pula nos meus peitos, Jimmy. Jimmy. E se foi.

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PENSAMENTO (EDIÇÃO 36)

Gostaria que hoje o mundo fosse utópico e experimental.

Que eu saísse de casa, cedo, e só encontrasse semblantes alegres e esportivos, gentes francas e democráticas, sem ódios e sem discriminações.

Que no trabalho ninguém se exasperasse, nem exigisse demasiado, compreendesse os erros e houvesse entendimento fraternal entre chefes e chefiados.

Que no almoço todas as mesas fossem fartas, pelo menos não faltantes, ainda que o trivial.

Que, a noite, na rua, a avenida iluminada, as lojas abertas, todos pudessem comprar para ter a alegria de dar e receber.

Que as catedrais e as igrejas se enchessem de gente para agradecer ao Senhor.

Mas, sei, a realidade é outra.

Há ódios e discriminações; há carrancas e radicalismos; há tristezas e intransigências; há incompreensões e desentendimentos; há carências e misérias; há mendigos e doentes, do corpo e do espírito.

Não falo daqui, nem dali.

Falo do mundo.

Há guerras e guerrinhas; há sequestros e homicídios; há assalto, roubos e furtos; há cavilações e deslealdades; há discórdias e extremismos.

Os homens não são amigos, nem fraternais; não são mansos, nem caridosos, não amam, verdadeiramente.

Gostaria que, hoje, o mundo fosse utópico e experimental.

Eu queria um ano pleno dos ensinamentos e dos exemplos de Cristo.

Para que, ainda que num clarão, de maneira fugaz, pudéssemos dizer:

- Afinal, realizamos o pensamento do Senhor.

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CRISE DEMAIS (EDIÇÃO 35)

- O Brasil é feito por nós… e o slogan criado para sustentar a chama cívica e patriótica do povo quanto ao Dia da Pátria.
É verdade, o Brasil é feito por nós, mas eu diria que não pelo Bernardino.
Digo Bernadino, como poderia usar outro e outros nomes.
Porque há muito nego por ai que nunca fez nada na vida, nem por si mesmo, muito menos pela pátria.
Levam a vida borboletando e (lembrado Estanislau) levantam-se mais cedo para ficar mais tempo à-toa.
Bernadino levou a vida toda por aí, sem trabalhar, tomando umas e outras, bate-papeando, e ninguém sabe como ele se arranjava para viver, ou melhor, para comer só, já que a água é farta e de graça e o dormir é uma fatalidade fisiológica.
Ele era, por assim dizer, alheio e inatingível conjuntaram, isto e, estava acima, além, indiferente e a parte de qualquer situação, fossem os tempos de miséria ou de fartura.
Um dia, Bernardino deu uma paradinha, alí, no Clube do Boi, e encontrou-se com o Chumbinho, que tinha a mania, entre outras, de ficar vigiando a porta da sua loja, onde os fazendeiros gostavam de assentar o bumbum.
Ao vê-lo, Chumbinho perguntou:
- Como é, Bernardino, tudo bem?
- Bem, nada - respondeu Bernardino.
E, tomando fôlego, exclamou perguntativo:
- Que crise, hem Chumbinho!? Que crise!
E afastou-se.
Chumbinho logo recolheu-se ao seu escritório, a ver as contas como andavam.
Ora, se a crise preocupava até o Bernardino, é porque ela deveria estar aí pelo nível da crise norte-americana de 1929.

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DECIDIDO (EDIÇÃO 34)

O ônibus corria macio sobre o asfalto, furando o negrume da noite.
O motorista apertou um botão e uma música caipira espalhou-se pelo carro.
Lá de trás, do escuro, veio uma voz:
- Motorista
- Que e?
- Tu tens mãe?
- Tenho, sim senhor.
- Gostas da velhinha?
- Muito.
- E então, meu filho?!
Parecia que o gosto do motorista não se afinava muito com os passageiros.
Uma velhota tentou solidarizar-se com o motorista:
- Axo xenxaxional!
- Cala a boca, saracura!
O homem apertou outro botão e veio um violino suave.
- Isso e música de defunto! Vai agourar a vozinha no raio-que-a-parta!
- Tem Roberto Carlos, ai?
Foi quando ouviu-se uma voz que mais parecia um trovão:
- Olhe, aqui pessoal! Quem ta falando e Godofredo Boa Morte, pernambucano, que tanto estripa na faca como chamusca no pau-de-fogo. Quero Valdique Soriano. Senão, dou um tiro na pessoa do motorista, que este ônibus vai virar ferro-velho pelo buraco abaixo. E aquele que protestar também leva chumbo. Bota Valdique nesse vitrola, ai, cabra-da-peste!
- Num tem Valdique, não
- Então, todo mundo de bico calado. Não tem valdique, não tem mais cantador no mundo. Quem der um pio, leva chumbo na asa. Não quero assembléia aqui dentro.
Um baixinho ensaiou seu puxa-saquismo:
- Muito bem...
Uma bala voou ligeira como andorinha e passou zunindo pela sua orelha.
- Foi só um telex, via Embratel.
Dai pra frente, silencio quase que absoluto.
Só se ouviam dois roncos: o do motor e o do Godofredo/ Boa Morte.

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A DIFICULDADE (EDIÇÃO 33)

No meio da barba, vi pelo espelho, o homem entrar pela porta.
Magro, moreno do sol, chapéu bem surrado na cabeça pequena e, embora da roca, como revelava claramente, tinha grande loquacidade.
O relógio no braço direito era um sinal diferente: ou não sabia onde pô-lo ou fazia a sua humilde ostentação, por ordinário o relógio.
A principio não prestei atenção na conversa.
Mas a certa altura ouvi o recem-entrado dizer:
- Não sei ler nem escrever. Mas conheço todo o alfabeto. A minha dificuldade e juntar as letras...
Achei aquilo sumamente interessante.
Foi quando um cabo de policia, que também fazia a barba, contou, por detrás de seus bigodes:
- Esse moço esta me lembrando a historia do padre e do fiel, acontecida em Central de Minas.
Fez uma pausa e, sentindo a expectativa, continuou:
- Um dia, durante o terço, o padre viu que um fiel fazia o Sinal da Cruz de maneira incrivelmente errada e estranha.
Aproximou-se do fiel e indagou:
- Você conhece o Sinal da cruz?
- Sei, sim, “seu” padre.
- Diga a oração para mim.
- Pelo sinal, da Santa Cruz...
E o homem falou, do principio ao fim, certinha.
- Muito bem! Exclamou o padre. Agora diga-me uma coisa: porque e que o senhor estava fazendo tudo errado?
O fiel pensou um pouco e respondeu:
- As palavras “seu” padre, eu sei. O difícil e esparramar pela cara.

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COITADO, COITADINHOS (EDIÇÃO 32)

Sim, irmãos, coitados dos candidatos, que deixam o trabalho, o lazer, a família, as amizades, os gozos e as delicias, a vida mansa e amena-enfim, deixam tudo o que lhes e caro, para caírem na luta “para defender o povo” (assim dizem).
Coitados dos eleitores e do povo em geral, que tem de ouvir discursos sobre discursos, ver a cara dos candidatos na televisão e receber abraços e sorrisos, tapinhas nas costas, emergindo “conhecencias” nunca suspeitadas.Os eleitores têm, ainda, por obrigação, de ir as urnas no dia 15 de novembro, para deitar o papelinho no “caixote”, depois de enfrentar filas imensas, nas quais são importunados pelos cabos-eleitorais.
E eles, o que e que eles tem com isso?
Eles estão ali só parados, imóveis, fazendo as cidades mais bonitas, de melhor urbanística, só prestando serviços.
Eles não podem reagir, são inanimados, não tem vontade, não podem, sequer, esboçar tênue protesto.
Não fundaram a Republica, nem fizeram revoluções, nem editaram Al-cincos, nem apoiaram a censura, nem fizeram passeatas, nem defenderam eleições diretas ou indiretas, nem votaram, nem participaram de pacotes, nem deram vivas aos direitos humanos, nem às direitas, nem as esquerdas, nem aos centros.
Que responsabilidade tem eles, para que façam com eles o que estão fazendo?
Os leitores já viram?
Os muros, postes, passeios, arvores, paredes, pontes e represas estão repletos de cartazes, que mostram fotografias de candidatos brancos, pretos, amarelos, vermelhos, bicolores e tricolores e policolores, altos, baixos, compridos, chatos, de todas as dimensões e geometrias, todos “defensores do povo, da justiça social, dos humildes e dos pobres, dos direitos humanos”, do diabo a quatro, multiplicado por outros quatro.
Os candidatos deveriam guardar um pouco de respeito por aqueles que nada tem com nada – o povo e os inanimados, que, no fim, são mais ou menos a mesma coisa.

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TRANSPORTAÇÃO (EDIÇÃO 31)

Embora estejam lutando há milênios, árabes e judeus têm duas coisas em comum: a desconfiança e o apego ao dinheiro. Esta estória configura bem a desconfiança do judeu. Dois deles se encontram na Rússia e o primeiro pergunta ao segundo:
-Isac, aonde vais?
-Vou a Sebastopol, Davi.
-Mentes. Dizes que vais para Sebastopol para que eu pense que vais para Moscou, mas, na realidade, vais para Sebastopol. E esta, configura bem a desconfiança do árabe. Seleme manda seu filho subir numa escada e atirar-se nos seus braços. A criança sorri, antevendo uma brincadeira gostosa. E salta e esborracha no chão.
Seleme, então, vira-se para o filho e sentencia:
-Isso é pra você não confiar em ninguém. Nem no seu pai. Vai daí (contam-me) Jacó, o judeu, devia um dinheiro a salim, o árabe que seria pago daí a dois dias. Jacó perdera o sono, estava tresnoitado, e emagrecia a olhos vistos, por não ter condições de pagar. Seu irmão Moisés falou com ele:
-Jacó, o que há com você?
-Não tenho dormido, porque devo um dinheiro a Salim e não vou poder pagar-lhe. Moisés pensou que motivo tão confiante não seria bastante para tirar o sono de ninguém, mas resolveu tomar uma atitude que resolvesse o problema de Jacó.
-Você vai me emprestar o dinheiro? Perguntou Jacó.
-E eu sou doido? – respondeu indagativamente Moisés, sentindo-se ofendido com a pergunta.
Em seguida, foi á janela e gritou para a janela da frente:
-Saliiiiim!!!
-O que é?
-O Jacó deve-lhe um dinheiro, mas não vai ter como pagar.
Falou, fechou a janela e voltou-se para Jacó dizendo:
- Agora, você pode dormir em paz. Quem não vai dormir e o Salim...

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A DIFICULDADE (EDIÇÃO 30)

No meio da barba , vi, pelo espelho, o homem entrar pela porta. Magro, moreno, de sol, chapéu bem surrado na cabeça pequena, e embora da roça, como revelava claramente, tinha grande loquacidade. O relógio no braço direito era um sinal diferente: ou não sabia onde pô-lo ou fazia a sua humilde onstentação, por ordinário o relógio. A princípio não prestei atenção na conversa. Mas, a certa altura, ouvi o recém-entrado dizer:
- Não sei ler, nem escrever. Mas conheço todo o alfabeto. A minha dificuldade é juntar as letras... Achei aquilo sumamente interessante. Foi quando um cabo de polícia, que também fazia barba, contou, por detrás de seus bigodes:
- Esse moço está me lembrando a história do padre e do fiel, acontecida em Central de Minas. Fez uma pausa e, sentindo a expectativa, continuou:
Um dia, durante o terço, o padre viu que um fiel fazia o Sinal da Cruz de maneira incrivelmente errada e estranha.
Aproximou-se do fiel e indagou:
- Você conhece o Sinal da Cruz?
- Sei sim, “seu” Padre.
- Diga a oração para mim.
- Pelo sinal, da Santa Cruz...
E o homem falou, do princípio ao fim, certinha.
- Muito bem! – exclamou o padre. Agora, diga-me uma coisa: por que é que o senhor esteve fazendo tudo errado? O fiel pensou um pouco e respondeu:
- As palavras, “seu” padre, eu sei. O difícil é esparramar pela cara.

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TARADO POR VOCÊ (Edição 29)

_Este é o Navarone.
_Muito prazer. Onde é que você arranjou esse nome?
_É por causa do filme “Os Canhões de Navarone”. Eu tenho um chute que não é mole. Uma tonelada de dinamite em cada pé.
_Já tive notícia. Você é a esperança.
O Presidente Anastácio Batista, do Fra-Fru F.C. (Na realidade seria Fla-Flu, porque o Presidente é Flamengo e sua mulher Fluminense, mas na hora de registrar houve um erro e ficou assim mesmo), o Presidente _ repito _ estava eufórico.
Navarone chutava de qualquer distância.
Só para dar um exemplo, os adversários faziam barreira e disposições finais.
Além de roupeiro, massagistas e médico, os adversários do Fra-Fru teriam de contratar um padre para distribuir extrema-unção.
Só uma coisa perturbava o Presidente: O Navarone era tarado com balas, doces, bombons etc.. e tinha violenta tendência a engordar.
O clube que vendeu seu passe foi honesto:
_Se deixar ele comer muito doce, vira uma bola.
Naquela tarde, domingo, Navarone seria lançado no jogo decisivo do campeonato.
Navarone recebeu Cr$ 600 mil de luvas.
E, na surdina, foi ao centro da cidade e comprou Cr$ 50 mil só de bombons.
Depois, foi para a concentração.
O treinador deu esta ordem:
_Cada um no seu quarto.
As horas correram e o estádio encheu tanto, que já tinha duas camadas de torcedores.
Momentos antes do jogo, Navarone não saíra do quarto.
Foram chamá-lo: bateram na porta, espancaram e nada.
O massagista botou a porta abaixo.
O quadro que se viu foi surpreendente: papéis de bombons em pirâmides e, no fundo, em cima da cama, Navarone, gordo, imenso, esférico - uma bola!

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O ALFABETO, ESSE IMPERFEITO (Edição 28)

Não sei quem inventou o alfabeto. É uma obra notável e útil, que permite a comunicação pela escrita, o registro físico da literatura, transportando, pelo tempo, a criação divina da Bíblia até a moderna pornografia de Henry Miller, passando por Shakespeare, Camões, Eça e outros menos votados.
Eu mesmo me valho das letras, todos os dias e com elas mantenho amor permanente e generoso.
Mas o alfabeto, embora suas virtudes, possui defeitos graves e algumas letras estão condenadas a situações vexatórias, como que sobre elas existisse a crueldade de uma maldição.
Vão Gôgo, o nosso maior humorista, já disse:
“O “b” minúsculo é uma letra grávida!”
Estranhamente não é uma gravidez de ciclo definido, porque, ao que eu saiba o “b” desde que é “b”, jamais teve bebê.
O “g” minúsculo da a impressão de ter sido uma letra muito vaidosa e, a exemplo das mulheres rechonchudas, apertou-se tanto na cintura que se tornou ridícula.
O “o” minúsculo é uma letra brincalhona, que rola f ra d que se escreve e súbit s trech s ficam prejudicad s.
Volto a palavra ao coleguinha Vão Gôgo para que ele nos explique porque o “Y” saiu do alfabeto português.
É que ele, “corvademente, se entregou, assim de braços para cima.”
Concluo, pois que se o “h” é uma cadeira, o “Y” era uma letra... poltrona!
O “F” maiúsculo é uma letra desequilibrada.
Já o “m” minúsculo tem boa base, é sólido.
Eu poderia ficar o jornal inteiro mostrando a falta de justiça social dentro do próprio alfabeto, mas tomaria o tempo dos leitores que tem de trabalhar (suponho que alguns de vocês trabalhem...).
Minha proposta é no sentido de que uma comissão de filólogos e arquitetos produza um novo alfabeto, mais humano, isto é, mais letrano, que sorte que esses pequenos e simpáticos sinais vivam melhor.
E reduzi-lo para 12 letras, como no alfabeto havaiano.
Melhoraria a vida das letras e facilitaria a vida dos analfabetos (estamos salvos!)

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O COMEDOR DE GAFANHOTOS (Edição 08)

Ele me conta que sempre deu sorte com as mulheres, mas que, agora, está na fossa.
Ouvi sua história.
Estava os dois sob um caramanchão, a lua a salpicar o chão de estrelas, como na canção de Orestes Barbosa.
Juras, beijinhos, eis que, de repente, nada mais que de repente, aconteceu.
Foi quando ele disse:
- Proparoxítona!
Não sei porque alguém diria esta palavra num lance romântico, nem perguntei-lhe.
O certo é que seu “roach” desprendeu-se e foi cair no decote dela, justamente – como direi? – entre o Pão-de-Açucar e o Morro da Urca.
Ela deu um pulo, assustada.
- Que foi? – perguntou ele despistando.
- Um bicho caiu aqui.
- Vou tirá-lo.
Pegou delicadamente a beira do decote e espiou lá dentro.
Primeiro, estremeceu: não era um simples tesouro de pirata do Caribe, mas as próprias minas de Salomão.
Mas ele estava demasiado preocupado com seu “roach” para entregar-se ao prazer da contemplação estética.
Ela pousou o dedinho por fora sobre o bichinho, que estava a noroeste do Pão-de-Açucar.
- Estou vendo.
- Que bicho é?
Pensou depressa numa série de bichos: barata, besouro, borboleta, até camelo.
E acabou falando um que não pensara:
- Um gafanhoto.
- Que horror!
- Agüente a mão que eu o tiro já daí.
Introduziu o fura bolo e o pai-de-todos, os dedos em pinça, como os batedores de carteiras, até que pescou o “roach”.
Tirou-o e – zás! – jogou o na boca.
Ela fez uma expressão de nojo.
- Você come gafanhotos?
Ele fez que sim com a cabeça e acrescentou:
- Como, sou tarado com gafanhotos.
Não houve mais “papo”, muito menos beijinhos.
Daí pra frente (ele acha que a história correu de boca em boca), nunca mais se deu sorte com as mulheres.

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O BUMBUM DA BABÁ (Edição 04)

Bairro nobre, casa colonial assobradada, amplos jardins, piscina, automóveis e todos os confortos próprios da gente bem-nascida, que pode e sabe viver.
Quem a vê por fora sente inveja e é capaz de dizer, atropelando um suspiro:
Que paraíso!
Entremos pelo portão de ferro batido, atravessemos os jardins e tomemos a liberdade de ficar junto a uma janela a espiar para dentro, a ver o que acontece.
Um casal está na confortável sala, cada qual numa poltrona.
É o caos! - exclama ele.
Mas o que posso fazer, santos céus?! - retruca a mulher com ar desorientado, como que pedindo socorro.
Há um curto silêncio quebrado por ela:
Fiz o que deveria fazer, isto é, contratei uma nova cozinheira e uma nova babá. Só que, parece, não fui muito feliz...
Não foi muito feliz?! Raramente alguém terá sido tão infeliz! A cozinheira é surda como uma porta, e a babá, se não for piranha, precisa só de um empurrãozinho...
Eu sei... eu sei...
Ainda ontem pedi à cozinheira um cinzano com camarão e ela me disse que não conhece nenhum cigano. Expliquei-lhe que eu pedira cinzano, e mostrei-lhe o litro. Ela entendeu. Mas, daí a pouco, me trouxe a bebida e uma travessa de macarrão.
Eu sei... eu sei...
E essa babá vive com o bumbum de fora, isto é, cada vez que ela se curva, a gente vê tudo. A minissaia dela parece uma blusa, de tão curta. E aquelas beiçolas pintadas de batom vermelho? Nosso filho anda atrás dela o tempo todo, fazendo marcação alemã, e não demora vamos ter aqui dentro de casa uma agressão sexual.
Interrompe a fala e anuncia:
Aí vem ela...
De fato, passa a babá, toda rebolante, e vara a sala de um lado a outro.
... e aí vem ele...
E logo passa o pequerrucho, com jeito de zumbi, os olhos vidrados, diretos no bumbum da babá.
É o caos!
A mulher tem um chilique e desmaia.
De nossa parte, devemos ser discretos e nos retirar, em respeito ao drama que acontece nesse "paraíso".

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